A democracia em ponto de mutação por Alan Machado

Alan Machado - 04 de September de 2015 (atualizado 29/Mar/2017 15h57)

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"...Viver numa democracia ainda com a mamadeira na mão, tendo por babá o capitalismo selvagem, não poderia dar em coisa pior..."

Por Alan Oliveira Machado*  

O físico Fritjof Capra, abre seu livro “O Ponto de Mutação”, de 1982, com uma citação do I Ching: “Ao término de um período de decadência sobrevém o ponto de mutação”.  As reflexões de Capra nesse livro buscam instituir um novo paradigma para se pensar o mundo e a humanidade. Ali ele começa a desenhar com mais clareza o que se chama hoje de pensamento sistêmico, como crítica e alternativa aos modos tradicionais de pensar a realidade e as consequências danosas que esses modos produziram no mundo levando-o à exacerbação de uma racionalidade que promove, aos poucos, a destruição da humanidade. Relembrando a já distante leitura que fiz de Capra, penso que, na atualidade, a democracia brasileira, ao que parece, finalmente caminha para atingir um ponto de mutação. Desde a abertura política, nos anos de 1980, movimento algum havia atingido materialmente o cerne da origem das desigualdades sociais e das ações que emperram o desenvolvimento econômico e social do País. Nas duas últimas décadas, conseguiu-se montar bases de estruturação do Estado que permitiram pelo menos que se alcançasse um patamar de racionalidade mecânica próximo ao que os países liberais de primeiro mundo já praticavam há uns cem anos. Entretanto, os elementos que amarram e desamarram os fios da vida social e econômica do País ficaram intocados:  banqueiros, empreiteiros, grandes conglomerados de comunicação, de comércio e políticos. Em função disso, as melhorias que a estruturação mínima do Estado e sua racionalidade promoveram não chegaram a todos os brasileiros e, hoje, se desfazem a passos largos na névoa do caos econômico e político. A crise que engolfa a nação e começa a inquietar até os brasileiros mais acomodados, pelo jeito, deve atingir um ponto de mutação. O modus operandi político e econômico em vigor está esgotado. Não há representação política ou projeto de economia confiável, assim a crise pode se estender até o colapso total desses modelos, forçando uma mudança de racionalidade e de prática política. É o que espero, mas desde já afirmo que se enganam aqueles que acreditam ser os Aécios, Temers, Cunhas ou Bolsonaros da vida alternativas para algo que não seja igual ou muito pior ao que está aí. Quem se dá bem nessa lógica política e econômica, estando ela em crise ou não, é o miolinho de grandes empresários, industriais, conglomerados de comunicação e banqueiros que está aí dando as ordens ou ditando as regras do jogo. Nenhuma prioridade das que os países mais civilizados tomam como norma régia para a maioria, como saúde, educação, segurança e divisão justa da riqueza se encaixam nas suas prioridades muito pessoais, muito particulares dessa gente. Esses políticos que aparecem aí como estandartes para a melhor democracia, para os valores republicanos mais nobres, são engrenagens da mesma ordem social em franca decadência. Nada que façam resolverá a situação de exclusão e de concentração de riquezas nas mãos dos personagens de sempre. O fato é que este ano parte do sistema judiciário alcançou um bom naco do miolo das forças que dominam o país desde o início da república e que apenas se atualizaram ao longo do último século. Figurões, donos das maiores empreiteiras do País, como o presidente da Odebrecht, da Camargo Correia, da Andrade Gutierrez entre muitos outros estão na cadeia. O resultado é que as vísceras do poder estão sendo desnudadas cruamente, explicitando a suja relação simbiótica entre a política e as forças econômicas patrocinadoras da manutenção do atraso. Não quero dizer aqui que essas forças econômicas condenam os políticos a mero serviçais da ordem que lhes interessa. De certo modo, grande parte dos políticos são gerentes de um negócio do qual se beneficiam. Participam de interesses e de compreensão social iguais aos ainda em vigor. Querem, pelo que se percebe, apenas manter uma ordem que lhes garanta os privilégios do poder e o acúmulo de riquezas. O certo é que o fosso aberto por essa gente, por onde escoaram somas fabulosas do dinheiro público, montantes bilionários, promoveu a ruina na vida de milhões de brasileiros e provavelmente comprometerá a vida de gerações que ainda nem nasceram. É assustador imaginar que toda roubalheira apurada até agora, não passa da ponta do iceberg no qual o Brasil encalhou. Os negócios dos fundos de pensão, do BNDES e de outros bancos púbicos ainda não entraram na mira das investigações. Agora, pensem vocês, caros leitores, se forem apurados também os negócios e práticas comerciais de empresas porcas como a Oi e demais telefônicas, que assaltam os consumidores, há décadas, escancaradamente, se valendo da mais estranha impunidade? Viver numa democracia ainda com a mamadeira na mão, tendo por babá o capitalismo selvagem, não poderia dar em coisa pior.  Porém, contra o pessimismo da realidade, assumo o otimismo da vontade e digo que o fim está próximo para esse tipo de estrutura política e econômica. Movamo-nos contra eles! É importante não deixar seus arquitetos e executores tomarem fôlego. Quem vai ficar de braços cruzados?   

*Alan é professor de letras da Universidade Federal de Goiás (UFG).