Assassinato e cultura por Alan Machado

Alan Machado - 24 de March de 2017 (atualizado 30/Mar/2017 14h07)

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Por Alan Oliveira Machado*

Li esta semana, na Folha Online, uma matéria curiosa. Dizia o texto que houve uma morte brutal num grupo de chimpanzés da selva senegalesa, na África. Os machos desse grupo se uniram e espancaram até a morte o macho alfa do bando praticando, logo em seguida, o canibalismo. Tal incidente me fez lembrar de Charles Darwin. Num livro de sua autoria, traduzido por aqui com o título “A origem do homem”, o notável cientista inglês argumenta que os primeiros grupos humanos provavelmente viviam como os primatas superiores, grandes antropoides, sempre com um macho forte dominante na liderança. Darwin se referia ao modo de organização social dos primatas e os possíveis resquícios disso nas organizações humanas de sua época.

Essa observação de Darwin foi o ponto de partida de Freud para a elaboração do livro Totem e tabu, de 1913. Nesse ensaio fundamental da Psicanálise, Freud constrói o que ele mesmo chama de seu mito. Em Totem e tabu, o ilustre psicanalista parte da premissa de que a horda primária humana, semelhante aos grupos de grandes primatas selvagens de hoje, era dominada por um macho alfa agressivo e possessivo. O desfrute das fêmeas do grupo era um privilégio dele. Os demais machos do bando, caso não respeitassem essa e outras regras, eram agredidos e expulsos da horda.

A tese de Freud é de que em um dado momento os filhos machos agredidos e expulsos do bando retornam e matam o pai da horda, canibalizando o cadáver em um gesto que mais à frente viraria um festim totêmico. E que a cultura, a lei, a ordem, nasceram exatamente desse crime. Após se verem livres da tirania do pai, os homens não se arriscaram a manter uma ordem que repetisse a estrutura anterior do grupo. Abstiveram-se das fêmeas mães e irmãs, instituindo a proibição do incesto e demais regras daí decorrentes, condenando, como abominável, o assassinado de semelhantes, sobretudo familiares.

A matéria veiculada pela Folha, lembra a tese de Freud quando nos informa que o macho alfa do grupo de primatas selvagens do Senegal era considerado agressivo e violento dentro do bando e os filhos machos, embora não tenham sido expulsos, o mataram com uma brutal violência, alguns tendo canibalizado o morto. Para Freud, no primata humano, esses atos legaram um sentimento ambivalente, contiveram, sob certas condições, a besta selvagem que ronda o íntimo da espécie. Isso se deu mediante o surgimento de uma culpa devastadora, alimentada pelo sentimento conflitivo provocado pelas marcas mnêmicas da violência e por resíduos de afetos positivos, como alimentação e proteção, também associados ao pai. Essa ambivalência fundamental foi atenuada com o surgimento do totem, objeto simbólico que passou a ocupar o lugar do pai morto, lugar agora das leis sagradas que ninguém poderia violar impunimente: não praticar incesto e não matar. Perdido na ordem puramente natural, onde se enquadra como primata, o homem se construiu como tal fora dela. A linguagem, a lei tornaram-se mais fundamental para a continuidade da espécie do que os instintos. Assim, o simbólico se institui como o lugar do humano, ponto diferencial que o define como algo além do biológico.

A memória do pai protetor e provedor da horda acoplada à lembrança do pai violento e egoísta, agora simbolizada, transformada em linguagem e lei, ganhou estatuto de culto e de esteio na organização do grupo que passou a fazer laços com outras famílias primatas, casamentos com fêmeas de fora do bando, garantia de novas leis de convivência e do surgimento de uma simbolização cada vez mais complexa, tronco dos ambíguos trilhos da cultura, da civilização.

A linguagem e a cultura, de um modo geral, surgiram de um assassinato, mais precisamente, do parricídio. Mas há fato para sustentar tal disparate? Claro que não! E mesmo que houvesse pouca diferença faria para a psicanálise. Segundo Freud, no psiquismo humano, os traços mnêmicos de vivências primárias perduram sendo elas ressignificadas e satisfeitas em objetos posteriores e provisórios. Há certa distância, a partir disso, entre necessidade e demanda. Somos animais que desejam, vivemos em demanda, pois a satisfação é sempre precária e provisória.

Quer saber se essa história de parricídio e de traços mnêmicos tem sentido? Relacione o que vai acima à história de Édipo rei e tantas outras com conflitos idênticos. Pergunte-se também porque nas missas católicas se lamenta a morte de Jesus e depois simbolicamente se bebe o sangue (vinho) e se come a carne do morto (hóstia), como num antigo festim totêmico.

*Alan é professor do curso de Letras da Universidade Estadual de Goiás (UEG). Poeta, contista e cronista. Autor de PRA DIZER QUE FOI ASSIM (Ibicaraí: Via Litterarum, 2015)