Livros são fadas por Alan Machado

Alan Machado - 02 de August de 2016 (atualizado 30/Mar/2017 14h08)

file-2017-03-24153234.253856-alan_machado-perfil3f77968a-10c0-11e7-ac5a-047d7b108db3.jpg

Alan Oliveira Machado*

Nos anos de 1990 houve uma onda comercial sufocante de misticismo Nova Era. As pessoas começaram até a ver gnomos e fadas por toda parte. Eu cheguei a ver muitos desses seres encantados, mas apenas naquelas lojinhas de shopping cheirando a incenso e, a propósito, muito caros, feinhos e sem graça. Não tenho nada contra a crença. Quem tem tempo e dinheiro de sobra pode acreditar no que quiser, o problema não é meu. Como sou apenas um operário do saber, acredito em livros. Sim e acredito em livros porque li livros ou li livros porque acredito neles? Acredito porque li e, é sério, para mim eles são como fadas. Realizaram todos os meus sonhos, aliás, realizam ainda. Livros são a salvação, acreditem! Nem precisa ter inteligência, em princípio, para, na vida, lograr êxito com eles. Esses entes mágicos são tão inteligentes e sábios que basta tê-los em companhia cotidianamente para ir ficando sabidinho. Depois que você fica sabidinho, eles ganham confiança e começam a realizar os seus desejos, aos poucos, entende, porque sábios não são muito dados a ir fazendo as coisas assim aos saltos, atropeladamente, sem pensar, sem calcular causas e consequências etc. Um bom livro tem responsabilidade, mesmo se o seu conteúdo for a irresponsabilidade. Embora haja alguns livros mais delirantes ou afoitos e aventureiros, no fundo, todos são reticentes e cautelosos em algum momento. Isso você percebe depois que fica mais sabido, mais à vontade em seu meio, por isso que não existe releitura. Toda vez que você pega um livro para reler, descobre que é outro livro, devido ao tanto de pistas e lições novas que ele te oferece. Lógico que, como em toda comunidade, há aqueles livros charlatães, outros que são falsos profetas e ainda aqueles que fazem truques de mágica, ou mais alguns cheios de receitas. Mas é tudo combinado por eles mesmos. Faz parte da formação de seus discípulos leitores passar pelos ritos de maturação para se tornarem sabidos e poderem ter desejos realizados. Nesse processo, aparecem os livros charlatães, os falsos profetas, os que têm receitinhas para tudo, os autoritários e aqueles cheios de truques com o fim de te prender em uma crença cega, coisa que dá a impressão ao leitor de que já é sabido sem ser. Passei por quase todas as fases de iniciação. Fui ficando sabido bem devagarinho. Entrei por caminhos que não davam em lugar algum com os livros charlatães; fiz discursos grandiloquentes, obscuros e apaixonados, com os livros falsos profetas; engoli e empurrei muitas receitinhas na companhia daqueles livrinhos que têm resposta para tudo; fiz truques de mágica e apontei o dedo para muitos sob a influência de certas páginas inapropriadas. Tombei aqui e acolá na minha iniciação, aqui e acolá muitas vezes... Mas sempre havia um livro solidário, com um riso amoroso e sábio, que me estendia a mão e dizia: você tem que ser mais inteligente, mais experto, está sendo enganado, feito de bobo. Leia com atenção, releia quantas vezes forem necessárias antes de se convencer. Livros são sábios tinhosos, cheios de segredos e ciladas. Para ser sabidinho você precisa desconfiar, desconfiar sempre, antes de se atirar como um louco ao néctar que eles te oferecem. Quando eles percebem que você está ficando sabido, abrem o jogo rapidinho e te passam para fases melhores em que pode realizar seus desejos. Agora, levante-se e siga em frente!  

*Alan Oliveira Machado é professor do curso de Letras da Universidade Estadual de Goiás (UEG). Poeta, contista e cronista. Autor de PRA DIZER QUE FOI ASSIM (Ibicaraí: Via Litterarum, 2015)