Não há política onde falta sentimento de comunidade por Alan Machado

Alan Machado - 03 de March de 2016 (atualizado 30/Mar/2017 14h09)

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Por Alan Oliveira Machado

Mais um ano eleitoral se inicia.  Daqui a pouco começaremos a sentir os drásticos movimentos das almas ambíguas dos canabrabeiros.  Sim ambíguas, pois, ambivalentes, divididas entre o sentimento de senhor e o de escravo, coisa da origem venceslauesca, no rumo, quem sabe, daquela dialética hegeliana. É notório que no período eleitoral não existe bem um ser-para-si nos gestos do vulgo uibaiense. Há um ser para o outro, melhor, um ser para o senhor, uma atitude de escravo, angustiosamente configurada, mascarada como um senhor em si, senhor de si. É por isso que vemos surgir ali um exército de senhores sem escravos, de patrões sem empregados, de donos sem posses a exercitarem a falsa plenipotência da ação política. O pior de tudo é saber que onde viceja esse tipo de alma, monstro pervertido de dupla face, não há possibilidade de existir comunidade, pólis, digo aqui no mais puro e nobre sentido grego das expressões: koinonía e pólis. Para os gregos do século de ouro de Péricles, comunidade não é um conjunto de pessoas que vivem em comum, pólis não é uma cidade. O sentido que se colhe tanto na “Ética Nicomaqueia” quanto na “Política”, de Aristóteles, que tão bem traduziu o espírito grego daquela época, é bem outro. Comunidade (Koinonía) é o sentimento de ser e de agir sempre tendo por fim o bem de todos. Traduzindo: um grego da pólis jamais agiria em prol de si mesmo se essa ação não fosse antes em benefício de todos. Se formos pensar hoje sobre essa questão, considerando o melhor sentido da expressão grega, veremos que não existe comunidade em Uibaí; existe um amontoado de famílias se tolerando ou se digladiando ou um ajuntado de egos. As pessoas agem quase que somente em benefício próprio, tanto no âmbito privado quanto no público. Sem o senso de comunidade, na direção clássica aqui apontada, também não há pólis (cidade), pois pólis para os gregos em questão não é um conjunto de ruas com casas, praças, escolas, comércio e administração. Pólis é um agrupamento de pessoas agindo com senso de comunidade. Agora pensemos bem, a política é a ação de homens e mulheres na pólis e pela pólis devido obviamente ao inquebrantável senso de comunidade. Se não temos senso de comunidade, não temos pólis, porque pólis não é apenas cidade; se não temos pólis, não temos política, tampouco cidadãos. Então podemos perguntar: há possibilidade de termos cidadãos onde prevalece a alma alternadamente cindida entre senhor e escravo? Onde as ações são sempre ou de sujeição a um senhor ou de imposição a um escravo? Essa prática, na Grécia clássica a que nos referimos, só era aceitável no óikos (casa da família). Na pólis, na comunidade não existem senhores nem escravos. O exercício de senhorio só era aceito na esfera privada, na família. Cada família tinha o seu senhor (despoten) dono dos escravos e dos bens. Como em Uibaí, pelo jeito, não há comunidade nem pólis, a esfera privada do óikos é quem domina seu agrupamento social e o jogo entre senhor e escravo campeia solto. Assim, o despotismo rege a vida precária e o atraso maioria, entra eleição, sai eleição. A questão que fica é: até quando vamos aceitar ser criadagem do despotismo?

*Alan Oliveira Machado é professor do Curso de Letras na Universidade Estadual de Goiás (UEG).