O mal-estar docente é só o mal-estar humano por Alan Machado

Alan Machado - 15 de October de 2015 (atualizado 29/Mar/2017 15h56)

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Por Alan Oliveira Machado* 

Muito se discute hoje em dia sobre a existência de um mal-estar docente. Nesse caso, estou com Freud. Se há mal-estar este é da civilização, da cultura, como queiram. Não tenho motivos para acreditar que haja um mal-estar exclusivamente docente. Há mesmo um mal-estar humano, fruto da nossa condição de ser de cultura. E esse mal-estar torna-se mais acentuado, mais perceptível em espaços que apresentam fissuras por onde linhas de fuga, tangenciamentos do desejo escapam. Acredito que a academia é um desses espaços fissurados. O mal-estar docente, nesse caso, não seria mais que uma roupa contextual para o mal-estar da civilização. O ser humano como tal só existe nessa condição ambivalente e essa condição é por si só paradoxal. A civilização, a cultura se materializam pelo estabelecimento de leis (campo simbólico), em função da repressão de instintos, da agressividade e do redirecionamento das pulsões, coisas anteriores à cultura e constitutivas da nossa natureza animal. A todo momento essas coisas manifestam sua existência e reivindicam seu lugar na nossa individualidade, causando choque entre o que se quer, o que se é e o que a sociedade espera que sejamos.  Nesse sentido, não há como escapar do mal-estar, seja na educação ou em qualquer área. Sou professor, contudo, meu mal-estar é humano, como acredito ser o de todos, seja na docência ou em qualquer outra função. O mal-estar é falta de chão às vezes traduzida simbolicamente em justificativas que nem sempre atenuam a insatisfação ou a angústia...O mal-estar, que não é necessariamente docente, tem origem na natureza da constituição humana. Não há como entrar no mundo da cultura, no mundo simbólico, portanto, sem perdas. Quando o humano se constitui como sujeito, como ser de linguagem, de cultura, deixa um resto da sua natureza de fora, que reverberará como falta, como vertigem, como ânsia de busca cega de algo que ele não sabe e nem pode saber o que é uma vez que ficou fora da sua constituição, da ordem simbólica que o rege como ser social, de linguagem. Esse resto o acossa cotidianamente. Talvez, o que mais atinge os docentes seja presenciarem na sua lida (mesmo sem se darem conta disso) o real da existência humana destroçar diariamente as suas redes de segurança simbólica. O suposto saber que os autoriza e sobre o qual se alçam em importância e a partir do qual imaginam e vivenciam suas relações tem seus fios simbólicos partidos ou afrouxados tirando-lhes o chão das certezas e da finalidade de seu trabalho. O mal-estar, a se considerar que tenha origem numa falta, numa perda original que se busca incansavelmente sem, todavia, jamais alcançar de fato, atinge a todos; entretanto, cada sujeito é singular na sua relação com essa falta e com o mal-estar que ela gera. As demandas subjetivas estão, portanto, ligadas ao modo como cada um se constitui como sujeito, ao modo como entra no mundo simbólico, como se constitui a partir do social. Pelo fio de pensamento que estou articulando aqui, constata-se que não é possível então eliminar o sofrimento humano, consegue-se, se muito, apenas atenuá-lo. Evitá-lo é impossível. Assim, qual a saída? Talvez, criar narrativas coletivas que ressignifiquem a condição humana dos docentes no espaço de trabalho ou construir espaços de vivência e reorientação de desejos seja um caminho para abrandar o sofrimento, para tornar possível a aceitação do   mal-estar como parte inevitável da nossa condição de sujeito. Isso nos permitiria lidar de forma menos sofrida com a insatisfação. Desse modo, o mal-estar, já que inevitável, não ocuparia todo o tempo e o tempo todo a posição de protagonista na nossa lida diária.

*Alan é professor de Letras da Universidade Federal de Goiás (UFG).