O sujeito sem corpo por Alan Machado

Alan Machado - 10 de August de 2016 (atualizado 30/Mar/2017 14h08)

file-2017-03-24153047.271507-alan_machado-perfilffb34648-10bf-11e7-8498-047d7b108db3.jpg

Por Alan Oliveira Machado*

Hoje me reuni com uns colegas da pesada para discutir o sujeito e o corpo. E com que surpresa fomos chegando à conclusão de que há sujeitos sem corpos, muitos, se não a maioria. Porque o que neles é corpo e o que para eles o é formam um desencontro. E como os há, aos montes, surfando numa onda imaginária que cobre o organismo vivo.  Eles acham que corpo é organismo e o organismo não acha nada e nem se acha. Assunto difícil esse que nos força a ir ao cogito cartesiano, aquele tal de “cogito ergo sum” que os desprovidos de latim básico ou de alguma sutileza filosófica não conseguem perceber que se trata de um “penso, logo sou” e não de um “penso, logo existo”. Isso mesmo, há uma considerável diferença entre ser e existir, prezados. Mas deixo essa pendenga para Sartre ou Heidegger resolver, já sabendo também que pode saltar besteira daquelas duas moitas filosóficas. E que sujeito sem corpo é esse? Questão paradoxal, difícil e enigmática, mas nem tanto para minha avó que certamente torceria a cara e soltaria um irônico “tomara eu ver!” Como se tivesse ali na ausência eterna de dúvida, sem enxergar o burburinho contraditório que o inabitual espalha sobre o linear do dia a dia; tão cheia de certeza, a velhinha, que se espantaria diante de tal absurdo: “corpo todo mundo tem, meu filho, larga de bestagem. Basta olhar pra ver: braços, pernas, cabeça, barriga”... Então, minha avó até que tem razão: o óbvio está aí. Acontece que esse é o ponto problemático. Corpo é uma coisa, organismo é outra. Quando se nasce, nasce um organismo, um monte de carne pulsante, um troço biológico que de si mesmo não tem noção. Quem tem noção de si então deve ter um corpo. Assim, o corpo deve ser uma conformação no organismo, no monte de carne pulsante, de algo com sentido, compreensivo, identificável. Pensando por aí, sou levado a concluir que o corpo é um pós-organismo ou o organismo é um pré-corpo. Minha avó, por certo, toma corpo por organismo, nesse caso refere-se ao que não enxerga e enxerga o que não é referente. Agora lascou! Desculpe-me, seu Descartes, mas seu cogito é da ordem de um corpo já que saber de si só é possível num pós-organismo, ou seja, esse saber se move a partir do que não sabe e se sabe a partir do que materialmente não é. O sujeito cartesiano é, assim, obra do  imaginário, dessa instância que acomoda os efeitos do organismo numa ideia de todo seguro, centrado, capaz de ver um fora porque tem um dentro que se sabe e que portanto diferencia um eu de um outro, que o toma como objeto, com um asséptico distanciamento. Dá vontade de rir. O que é a droga do corpo então? Por que há sujeito sem corpo? Minha avó possivelmente já teria corrido atrás de mim com um chicote se eu tivesse insistindo com essa lenga-lenga no pé do ouvido dela. Ora, então vou tentar me livrar disso o mais rápido possível, meus amigos: esse tal de cogito é o império da razão, da lógica matemática. Se minha avó pensa que tem um corpo ordenado, com um eu centrado, senhor da casa, dono das vontades e vive essa experiência com tanta segurança, ela está certamente num engano de corpo. Ou num corpo inventado, porque só é possível um corpo inventado na razão, no logos, na palavra, na ordem simbólica se quiserem. Depois que Nietzsche, Freud e outros desocupados, muito ocupados, jogaram areia no 2 + 2 são 4 do atormentado Descartes, a gente se viu diante de algo que não era o corpo certinho, tão na cara, tão óbvio e inquestionável para minha avó. Uma potência pulsante e um tanto desgovernada passou a assombrar os nossos devaneios de unidade. “O homem não é senhor na sua própria casa”, diria Freud ao perceber, no que fora um corpo cartesiano de mulher, a histeria comandando um latejar desconexo, fazendo gritar loucamente vontades pouco toleráveis. Faria o mesmo diante de um presidente Schreber alucinado, juntando os pedaços do seu corpo cartesiano, emendando boca com ânus, montando-o como uma bricolagem para ser a noiva de Deus. E que falta fez esse significante ao presidente Schreber, esse falo que não conseguira achar em Descartes, agulha e linha para amarrar um bom engano como o de minha avó. A desmoralização das certezas cartesianas fez o organismo obliterado pela razão estourar sob o “cogito ergo sum”, deixando os humanos de bom senso atônitos diante do despedaçamento pulsante do que antes se cria corpo inquestionável. Depois disso, restou, aos mais sensíveis, o penso, logo não sei o que sou, não sei o que vejo, não sei o que quero, não sei quantos sou, não sei se sou ou serei fora do que não sou. Foi bem isso mesmo que disse o sarcástico doutor Lacan, agarrado à mão de Freud: “sou onde não estou, logo estou onde não sou”. A razão cartesiana obliterava algo insuportável, como se fosse algo apenas contingente que poderia ser desprezado. A emergência do organismo despedaçado, por que sem o espelho da razão para ordená-lo num engano suportável, fez o contrário: mostrou o sujeito, a razão como contingências da coisa pulsional, errante, imprevisível e incerta que todos somos. Aí, preciso concluir que, como muitos que andam hoje pelas ruas, minha avó pensava que tinha um corpo. Morreu sem entender que não o tinha, sem desconfiar que o que via, sentia e tocava era apenas efeito da razão articulada como sujeito absoluto. Minha avó era bem normal, né mesmo?

*Alan é professor do curso de Letras da Universidade Estadual de Goiás (UEG). Poeta, contista e cronista. Autor de PRA DIZER QUE FOI ASSIM (Ibicaraí: Via Litterarum, 2015)