Pokémon Go e o "Carneiral Belibalente" por Alan Machado

Alan Machado - 27 de July de 2016 (atualizado 30/Mar/2017 14h08)

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Por Alan Oliveira Machado*

“Intenso carneiral belibalente!” Acordei com esse verso de Drummond hoje ecoando em minha cabeça. É do poema “Ao Deus Kom Unik Assão”. Durante o café da manhã até me peguei declamando-o mais de uma vez, escandindo as sílabas. Como ando psicanalítico nos últimos tempos, me perguntei se era um sintoma. Sintoma de quê? Então me lembrei de uma reportagem sobre o novo fenômeno de mídias interativas online chamado “Pokémon Go” que havia visto dias antes. Pessoas baixam o jogo “Pokémon Go” no “smartphone” e o aplicativo, vinculado ao GPS do celular, vai dando dicas de onde, no espaço físico real, a pessoa pode encontrar pokémons escondidos para capturá-los. A reportagem mostrava, como se fosse uma coisa bacana e maravilhosa, pessoas abestalhadas caminhando cegamente por ruas, bairros e matas, de olhos vidrados em seus celulares, para ver onde descobriam um bichinho virtual desses, materializado na tela do aparelho por coordenadas de satélite sincronizadas. Houve até um caso de prisão ligada à prática do jogo: a de dois canadenses que atravessaram a fronteira dos EUA sem perceber, porque estavam mesmerizados pela busca de pokémons e nem viram o quanto caminharam e onde já estavam. Essa lembrança do “Pokémon Go” obrigou-me a desmontar, a meu modo, o verso de Drummond. O que seria o “intenso carneiral belibalente”, nessa conjunção simbólica que me pegou? Pois bem, comecemos pelo “Intenso” que é mais simples. Imagino que o intenso se refira à força e densidade. Uma coisa tem que ter força e densidade para enquadrar um ser humano numa situação de máquina dirigida, com desejos concentrados em um ponto apenas, quase cego para o todo adjacente. Jogadores dessa novidade hipnótica caminham cegos como zumbis pelas ruas, com os afetos capturados pela tela do “smartphone”. Mas o “intenso” de Drummond tem um objeto, o “carneiral”. E isso podemos ler como uma palavra-valise que esconde outros significantes como: carne, carneiro e rebanho. Ora, aquelas pessoas mesmerizadas pelo jogo são carnes sem vontade própria, guiadas como um rebanho dócil de ovelhas, cujos sinais de indocilidade, de agressividade estão circunscritos às pistas da tela do celular e à capacidade de chegar primeiro às coordenadas onde estão os pokémons. Então seus balidos, porque assim se expressam as ovelhas, materializam uma falsa hostilidade, um delírio forjado de sangue e silício. Drummond nos oferece a deliciosa montagem que liga minha angústia aos procuradores de pokémons: eles são “belibalentes”, bélicos que balem, bélicos como ovelhas de um intenso carneiral. Meu sentimento é de que entramos em uma era pós Marshall Mcluhan. Aquele pensador canadense, que magistralmente antecipou a ideia da aldeia global e dos meios de comunicação como extensões do homem, veria hoje que tais meios não são necessariamente meios, nem extensões, tampouco de comunicação. São modos de subjetivação da carne dos primatas sapiens. Não são extensões do homem, são trilhos de criação do homem. Certamente constataria na sequência: satélite, “smartphone” e “homo sapiens”, que o homem é apenas a carne que carrega o aparelho na mão, o “em si” dele se materializa entre o satélite e o celular. A questão é: até que ponto conseguiremos dissipar o caráter melancólico dessa realidade tão estranha?

*Alan Oliveira Machado é professor do curso de Letras da Universidade Estadual de Goiás (UEG). Poeta, contista e cronista. Autor de PRA DIZER QUE FOI ASSIM (Ibicaraí: Via Litterarum, 2015).