Sobre o pragmatismo ignorante e o pragmatismo maquiavélico por Alan Machado

Alan Machado - 31 de August de 2015 (atualizado 29/Mar/2017 15h57)

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Por Alan Oliveia Machado* 

Há um apelo reacionário que atravessa o discurso de certos uibaienses quando alguém põe em xeque, ou em evidência, o óbvio efeito desastroso de suas ações no município. Creio que isso é comum também na política da Região de Irecê, quiçá no Brasil inteiro. Esse apelo vem quase sempre na forma de acusação contra quem aponta os danos materiais das ações executadas por esse tipo de gente. O rótulo mais comum usado pelos reacionários é aquele que retrata o cidadão crítico como alguém que, “em vez de criticar, deveria ir fazer as coisas do modo certo lá”. Há vários erros nesse raciocínio. Vou apontar pelo menos dois que acredito serem os mais grosseiros: Primeiro, se um cidadão paga caro com seus impostos para um gestor público cuidar de sua cidade e o gestor começa a fazer coisas erradas, como destruição ambiental, por exemplo, se a se ele (o cidadão) for seguir o conselho dos reacionários de que “em vez de criticar devemos ir fazer”, quais opções que lhe sobrariam? Respondo: ficar calado ou ir fazer as coisas particularmente. Ora, não seria obtuso eleger um gestor, pagá-lo para zelar e melhorar o que é de todos e, no caso de ele não cumprir isso, o cidadão ir fazer por conta própria? Que tipo de gênio pensaria uma tolice dessas? Creio que ninguém é tolo a tal ponto. Ninguém paga a um pedreiro para construir uma casa e em o pedreiro não a construindo a pessoa vai fazer em seu lugar. O mínimo que qualquer sujeito com juízo na cabeça tende a fazer é demitir o pedreiro, pegar o dinheiro de volta e contratar um profissional de construção mais responsável e competente. Quanto à opção de ficar calado, quem a escolheria em uma situação como essa? Então, penso que é inteligente não insistir nesse primeiro erro bobo de raciocínio. Se os gestores públicos, pagos com o nosso dinheiro para executar tarefas e ações de melhoria da cidade ou do município, também custeadas por nós, praticam ações lesivas aos princípios que deveriam seguir no trato e no uso da coisa pública, o primeiro passo de qualquer cidadão inteligente é apontar o erro, é criticar, é exigir sim que façam a coisa certa. As pessoas que, de imediato, reagem negativamente a quem aponta o erro seguem dois tipos de pragmatismo: o pragmatismo ignorante ou o pragmatismo maquiavélico. Os que seguem o pragmatismo ignorante agem mais pelo emocional e certamente não sabem o que significa ação. Não sabem a diferença entre administração pública e privada, entre obra pública e privada, entre dinheiro público e privado, entre ação pública e privada, entre gestor e cidadão, esses pragmáticos ignorantes precisam acordar para a vida. Os que seguem o pragmatismo maquiavélico sabem o porquê e as consequências dos maus atos no serviço público e se calam e querem calar os cidadãos críticos diante de tais atos apenas porque têm interesses políticos, ideológicos, pessoais ou de poder sustentados pela lógica que produz tais atos lesivos à comunidade. Esses sujeitos maquiavélicos são, portanto, cúmplices dos malfeitos e, se não igualmente criminosos, pelo menos antiéticos e indignos de confiança. O segundo erro que me propus apontar é a ideia de que ação é apenas a intervenção material in loco. Primeiro, gostaria de dizer que, no caso do município de Uibaí, uma grande porção dos  gestores e dos apoiadores da atual gestão é composta de gente que passou parte significativa da vida fora da terra natal, fazendo exatamente isto: criticando, apontando erros na gestão local, propondo ações etc. E digo que o que fizeram a distância eram ações tão materiais e muitas vezes tão dignas e tão cidadãs quanto as  tantas realizadas localmente, como semanas de arte, fundação de associações comunitárias, de grupos de teatro, de ação social, de música, agremiações políticas, entre outras. As críticas, por meio de jornaizinhos, panfletos, palestras etc. foram tão importantes quanto qualquer outra ação; tiveram efeito duradouro na formação da juventude e na construção do ethos cidadão, crítico, artístico e participativo dos uibaienses. O que esse pessoal, hoje reacionário, faz é confundir a natureza, o propósito ou o resultado da ação com a ação em si. E como já disse, o fazem por ignorância ou por maquiavelismo. Uma ação pode ter natureza abstrata de formação do caráter, da aretê.  Assim, uma opinião, uma crítica, um conselho, um pensamento, uma demonstração lógica, são ações com as mais diversas finalidades. A finalidade pode ser de educar, de formar ou de induzir a fazer coisas. Fazer coisas é já efeito de uma ação anterior. Pode ser considerada ação, mas no fundo é o contínuo de uma ação dirigida a um fim específico e, como sabemos, nem todas as ações têm os mesmos fins e a mesma natureza.  Desse modo, posso questionar aqui se há alguma nobreza ou benefício em fazer coisas sem saber exatamente a que fim elas se destinam ou a que interesses elas atendem. Às vezes, as pessoas, como um rebanho tresloucado, se põem a fazer coisas ou a aceitar coisas, induzidas que estão pelo discurso maquiavélico e o fazem com certo orgulho, sem se dar conta dos efeitos prejudiciais a si mesmas e à coletividade. Como uma manada desprovida de senso, correm felizes para o precipício. Qualquer um que olhe com o mínimo de honestidade para a história do Brasil vai perceber que a nossa desgraça, a nossa pobreza material e educacional são frutos, ainda hoje, do pragmatismo ignorante da maioria dirigido pelo pragmatismo maquiavélico de uns poucos, sempre a serviço de atender suas inclinações pessoais ou garantir privilégios às custas da depredação dos bens públicos, via naturalização da corrupção, da proteção de maus políticos e gestores e do silenciamento dos cidadãos. 

*Alan é professor de Letras da Universidade Federal de Goiás (UFG).