Transleituras por Alan Machado

Alan Machado - 25 de October de 2016 (atualizado 30/Mar/2017 14h07)

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Alan Oliveira Machado*

Relendo a “Odisseia”, de Homero, encontrei nas peripécias de Ulisses, pelos mares do mitológico mundo antigo, um episódio do qual não me lembrava com relação à primeira vez que li o texto, numa edição da Abril Cultural. Trata-se de uma passagem do nono canto em que Odisseu atraca suas naus na terra dos lotófagos. Em poucos versos Homero nos dá conta de que os lotófagos são um povo que se alimenta de flores, especificamente de uma chamada lótus, doce como o mel, que quem a come se esquece de voltar para casa ou de dar notícias, como que entorpecido e suspenso em uma sensação de inteireza e completude. Os lotófagos, pelo jeito, vivem em um mundo sem faltas. Vendo o efeito da narcose provocada pelas flores em seus homens, Ulisses os arrasta à força, para os navios, enquanto estes choram sem querer abandonar a vida de lotófagos. As delícias do mundo da leitura sempre nos reservam surpresas, não é? Pois foi o que me aconteceu, ao me perguntar sobre o porquê de estar, desta vez, tomado de interesse por essa passagem rápida da “Odisseia”. Deixei a edição que estava lendo, da Cosacnafy, e fui à velha edição da Abril Cultural tirar a limpo os efeitos de minhas sensações. Não encontrei nada além das diferenças de formatação e dos gostos distintos dos tradutores. Basicamente, as mesmas referências estavam lá. Uma terra em que os habitantes comem uma flor e vivem tomados por um torpor de vida sem conflitos com o tempo e com a existência. Ao imaginar os lotófagos, de imediato, fui tomado pelas ideias de paraíso, de onda Hippie dos anos de 1960. Woodstock seria a terra de lotófagos que um dia se materializou, por instantes, no seio áspero da sociedade ocidental, cheia de cobranças e de obrigações com o passado, com o presente e com os bens de capital?  Ao passo que me divertia pensando essas coisas, lembrei-me de um filme infantojuvenil desses de hoje, “Percy Jackson e o Ladrão de Raios”. Assisti com minha filha de sete anos. Ela meio que fascinada pelo mocinho adolescente e eu observando as relações da trama com a “Odisseia” e com a mitologia grega em geral. Nessa narrativa cinematográfica, o herói e a mocinha, iniciados por Dioniso, empreendem um périplo ao estilo épico. Enfrentam a medusa, as parcas, Hades etc., tudo isso no mundo atual. Na jornada, passam, a exemplo, por Las Vegas e, ao entrarem num cassino, ganham doces em forma de lótus. Ao comerem, sentem-se alegres, satisfeitos e felizes, mas o herói percebe ao conversar com um jovem que está nos caça-níqueis, vestido em trajes dos anos hippies, que as informações do rapaz são todas dos anos de 1970. O jovem com cara de woodstockquiano está parado no tempo, num torpor de satisfação que suspende sua capacidade crítica, mantendo-o num feliz esquecimento. Criativamente o filme reescreve a passagem de Ulisses pela terra dos lotófagos, foi o que concluí. E me ocorreu também perguntar sobre a relação entre a ausência de falta, de satisfação e o medo do esquecimento e da perda da realidade. Será a falta que nos dá a linha da vida e a consciência crítica e que também nos mostra a satisfação plena como um perigo já que elimina as ligações com o passado e as expectativas de futuro? Não sei. A relação entre os lotófagos da “Odisseia” e o filme que vi com minha filha trouxe também para o assunto a memória de um poema medieval do século XIII, escrito em francês, chamado Cocagne. Em Cocagne, traduzido em português por Cocanha, a vida seguia a plena satisfação. Havia abundância de comida, de vinho e de bens. As pessoas se fartavam quando queriam, onde queriam e com o que queriam, pois tudo era gratuito, estava dado. Os habitantes viviam em eterno ócio e entrega aos prazeres, não trabalhavam e nem envelheciam. A vida em Cocanha assemelha-se à do jovem de estilo hippie que Percy Jackson encontrou no cassino de Las Vegas, preso num eterno presente de prazer e satisfação. Naquela situação também não havia espaço para a falta e os mecanismos de coação e indução que ela cria.  Tudo diferente do nosso mundo que transforma os seres em petecas da existência, presas no presente, mas vivendo loucamente um transe frenético que os atira dos engodos do passado para os engodos do futuro, tornando-os cegos para o presente ou só presentes em suas cegueiras. Trocando o gozo da falta pela falta de gozo.

*Alan Oliveira Machado é professor do curso de Letras da Universidade Estadual de Goiás (UEG). Poeta, contista e cronista. Autor de PRA DIZER QUE FOI ASSIM (Ibicaraí: Via Litterarum, 2015)