A educação como solução, não como propaganda por Augusto Césare

Augusto Césare - 05 de January de 2016 (atualizado 10/Apr/2017 18h15)

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Por Augusto Césare* 

Ao longo de vários anos podemos observar que a grande maioria da população brasileira atribui à educação o mecanismo para a solução definitiva da pobreza e de outras mazelas de nosso país. Justiça feita, a educação ganhou a discussão política através do Senador Cristovam Buarque nas eleições de 2006, quando trouxe para o âmbito governamental o problema da educação. O que foi feito ao longo desses anos? Como a educação tem sido tratada pelos nossos governantes? Realmente a educação trará a solução para tudo? São perguntas que deixamos de fazer ao longo do processo. A educação tem sido mais utilizada como propaganda de governo, do que como objeto real de investimento e dedicação. Para entendermos a questão “educação no Brasil”, é preciso situar o país no contexto mundial, uma vez que educação não é um processo isolado de aprendizado. O Programa Internacional de Avaliação de Alunos (PISA) foi criado pela OCDE (Organização para cooperação e desenvolvimento econômico) com o intuito de avaliar as políticas de ensino. Seus resultados refletem, contudo, os efeitos da educação na economia e no índice de desenvolvimento humano do país, mostrando que educação e prosperidade caminham juntas. O Brasil tem amargado desde o ano 2000 uma posição vexatória diante de seu tamanho e riqueza. Atualmente com 65 países, o Brasil permanece sempre abaixo do 55º colocado, com índices comparáveis a países como Malásia, Tunísia e Cazaquistão. Na América latina permanece pouco à frente da Argentina e Colômbia (nem todos os países participam do PISA). Quando comparamos com as potências econômicas, o desempenho do Brasil é vergonhoso. Dentre as habilidades analisadas de leitura, matemática e ciências a média do Brasil foi de 20 a 40% inferior à média dos países da OCDE. Muitos incautos de plantão criticam a forma de avaliação do PISA, no entanto o fato é que existe uma correlação clara entre o PISA e desenvolvimento econômico. Cabe aqui salientar que esse desempenho não está atrelado necessariamente ao tipo de governo. Países democratas e ricos como os Estados Unidos apresentam uma modesta 24ª colocação, enquanto países como China e Singapura são 1º e 3º colocados respectivamente. Na realidade, isso apenas enfatiza que para a educação ser efetiva é necessário que seja uma opção real do governo, e não uma bela peça de propaganda. O governo atual estabeleceu Pátria Educadora como seu slogan, mas não estabeleceu modelos, não houve implementação de projetos, nem determinação metas a serem alcançadas. A educação virou peça de propaganda que 90% dos brasileiros queriam ouvir. Nossos alunos mal sabem as quatro operações matemáticas, desconhecem a imensa maioria das evoluções científicas, lêem muito pouco, não sabem interpretar textos com mais de dois parágrafos e escrevem muito mal, com erros ortográficos e gramaticais, sem estruturação e com um conteúdo superficial. O que aconteceu para países como China, Singapura e Coreia do Sul tornarem-se referências em educação? Qual o impacto disso em suas economias e na vida de seus cidadãos? Como foi possível prosperar? O extenso relatório de quase 400 páginas do OCDE/PISA expõe detalhadamente o desempenho dos países e traz lições importantes para implantar uma educação de qualidade. “A maioria dos estudantes chega à escola disposto a aprender. Como a escola deve captar essa predisposição para ensinar esse jovem a deixar a escola com motivação e capacidade para continuar aprendendo o resto da vida? O estudante deve alcançar tanto o aprendizado na escola, como seu aprendizado pela vida inteira. Ele precisa assumir o processo de aprendizado e tomar para si a responsabilidade de seus objetivos. Esses tipos de objetivos não fazem parte do currículo formal, no entanto, podem ser de extremo valor para o futuro do estudante.” Como professor, ouso afirmar que o Brasil adotou o caminho errado para a excelência em educação. Criação de inúmeras faculdades de capacidade duvidosa, aumento expressivo no número de universitários sem qualificação mínima e a desvalorização absurda do professor. Se existe um programa de educação no Brasil, certamente ele foi elaborado por tecnocratas, profissionais do marketing e pseudodocentes. Apenas uma pequena parcela das universidades apresenta nível adequado de ensino. Muitas faculdades formam profissionais medíocres, que terão empregos medíocres, exercendo atividades de forma medíocre. A educação brasileira jogou a meritocracia no lixo. Os exemplos bem sucedidos em educação mostram que é importante ter escolas bem aparelhadas, mas o essencial é a valorização do professor. Esse profissional desprezado no Brasil é reverenciado em países como China e Coreia do Sul. Enquanto o piso salarial de 40 horas de um profissional nível médio é de dois mil reais (aproximadamente 500 dólares), um professor coreano recebe oito vezes mais. O docente no Brasil trabalha em duas ou três escolas e possui uma carga horária de 70 horas semanais. Como exigir desse professor um compromisso com qualidade?  Segundo dados do OCDE/PISA, o Brasil investe pouco em educação e menos ainda no professor. O que fazer? Como tentar melhorar a educação em nosso município? O que a sociedade pode fazer para efetivamente escolher a educação como objetivo, e não como propaganda? Estabelecer educação como prioridade significa adotar um modelo focado no aluno, com valorização do professor e pautado na meritocracia. É necessário:

  1. Valorizar o professor com um salário decente, compatível com suas atividades e qualificação técnica. Um plano salarial vinculado ao tempo de atuação, metas alcançadas e qualificação individual (pós-graduação lato sensu, mestrado, doutorado e pós-doutorado).
  2. Ampliar a carga horária de estudo dos alunos, buscando inserir no conteúdo programático disciplinas e atividades extras para a formação de um “ser pensante”. O aluno deve aprender valores como disciplina, caridade, respeito, cidadania, patriotismo, etc.
  3. Tornar a escola um lugar agradável e seguro, não apenas para seus alunos, professores e funcionários, mas para que a família se sinta inserida e participante desse processo. Não adianta educar na escola e deseducar em casa.
  4. Estabelecer metas de proficiência através da participação dos alunos nas diversas olimpíadas de conhecimento. O docente deve ter parte de seu tempo disponibilizado para formar as equipes, aplicar métodos e buscar resultados.
  5. Práticas esportivas como forma de disciplina, treinamento e superação.
  6. Práticas de cidadania, como o hasteamento da bandeira e hino nacional semanalmente. A consciência de pertencer a uma nação torna o jovem mais preocupado com a sociedade e seu país.

Os países que realmente investiram em educação já começaram a colher os frutos desse investimento em pouco tempo. A riqueza natural de qualquer país só pode ser comparada com a riqueza cultural de seu povo. De nada adianta nosso rico subsolo, nossos extensos campos de agricultura, nossas florestas ainda virgens e nossas praias ensolaradas, se nosso povo é inculto e pobre. A pobreza não é uma escolha do indivíduo, mas a ignorância não pode ser uma escolha do Estado. Crescemos ouvindo que não devemos dar o peixe, mas dar a vara para pescar. Dar um instrumento para que o cidadão possa vencer suas dificuldades e crescer. Meu desafio é maior ainda. É convencer esse cidadão que ele é capaz de pensar, é capaz de resolver seus problemas, é preparado para vencer desafios. Esse cidadão é capaz de fazer sua própria vara de pescar a partir de seus conhecimentos. A educação aplicada nesse modelo certamente propiciará o aparecimento de profissionais mais qualificados, de professores mais comprometidos e de famílias mais inseridas. No entanto, o melhor resultado será a garantia de gerações futuras mais civilizadas, mais preocupadas com o país, mais comprometidas com o planeta e mais conscientes de que um futuro próspero depende da educação de hoje.

*Augusto Césare é cardiologista e professor universitário