Escrúpulo por Augusto Césare

Augusto Césare - 15 de November de 2015 (atualizado 10/Apr/2017 18h15)

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Por Augusto Césare*

A ideia dessa coluna é refletir assuntos variados do nosso cotidiano. Como o primeiro tema a ser discutido merece sempre um destaque, preferi abordar o contexto social, econômico e político que vivemos atualmente por um ângulo puramente filosófico.

Na Roma antiga os comerciantes efetuavam suas vendas com balanças e pesos. Para evitar lesar os clientes, os bons comerciantes usavam pequenas pedras chamadas de “scrupulum” que pesavam a vigésima quarta parte de uma Onça. A boa conduta e honestidade desses comerciantes foram sendo espalhadas, e dessa forma, as pessoas honestas passaram a ser identificadas como aquelas que possuíam “scrupulum”. Nos dias atuais, o substantivo escrúpulo identifica o cuidado consciente em fazer o que é certo, em não causar dano ao outro, em ser minucioso e justo.

Ter escrúpulo possui uma representatividade maior e mais profunda do que ser ético ou ter moralidade. A moral está representada pelo conjunto de regras do cotidiano que uma determinada sociedade apresenta. Por exemplo, a poligamia é uma regra imoral na nossa concepção ocidental, no entanto é perfeitamente normal casar-se com várias mulheres na cultura árabe, permitindo que a poligamia não seja imoral.

A ética apresenta um conceito um pouco mais complexo. Apesar de representar basicamente a moralidade, a ética está relacionada ao comportamento humano baseado nessas regras. Seria ético, por exemplo, ultrapassar um semáforo vermelho? E se essa ultrapassagem fosse justificada para salvar a vida de alguém? Entretanto, isso poderia acontecer em qualquer país ou lugar, diferente de culturas ou padrões. A ética é reflexiva, enquanto a moral é imutável.

O escrúpulo, como sua própria origem etimológica nos coloca, está internalizado no indivíduo. Não depende de regras ou conceitos morais. Não depende de culturas ou padronizações sociais. Enquanto a ética reflete fazer ou não fazer de acordo com nossas concepções morais, ter escrúpulo nos leva a perguntar se nossa atitude vai causar dano a alguém, se nossa atitude é plenamente justa. A atitude escrupulosa é aquela que foi pensada intimamente, que foi refletida não apenas em premissas de moralidade, mas em concepções de caridade, misericórdia e justiça.

Nossa sociedade anseia pelo renascimento da moralidade e da ética como se esses valores pudessem ser ensinados e distribuídos como mercadoria. Clama-se nas ruas e nas redes sociais por movimentos que sejam éticos, por manifestações que edifiquem a moralidade. Entretanto, esquece que a moral pertence à sociedade e não ao indivíduo. A ética, apesar de individual, está intimamente atrelada à moralidade, fragilizada numa sociedade que se mostra cada vez mais decrépita e individualista.

Lembro-me de uma palestra de um educador (desculpe não me lembrar do nome) afirmando que os sentimentos e valores são aprendidos ao longo da vida. Que nascemos virgens e somos moldados pelo núcleo familiar que vivemos. Concordo parcialmente, uma vez que a ciência tem mostrado que nossa bagagem genética nos predispõe a muitas variações comportamentais, independente dos valores compartilhados. De qualquer forma, realmente aprendemos muito nas nossas relações familiares. Meu filho, muito curioso, perguntou-me depois como aprender e incorporar todos esses bons valores. Depois de respirar fundo (não esperava uma pergunta tão profunda), respondi que ele iria aprendendo com o tempo e observando as atitudes de seus pais, avós, etc. Mas complementei; Se em algum momento você tiver dúvida de como agir diante de uma situação, pense se a outra pessoa iria gostar ou não da forma como você pensou em agir. Não me dei conta inicialmente, mas enquanto escrevia esse artigo, percebi que naquele momento falávamos de ter escrúpulos.

Nossa sociedade carece de pensamentos e atitudes escrupulosas. Simples atitudes como respeitar o trânsito, preservar o patrimônio público, zelar pelo bem estar de nosso planeta. Nossos representantes políticos precisam ter escrúpulos ao lidar com o bem público, precisam compreender que esse bem pertence a todos e não a um grupo apenas. Gestores púbicos inescrupulosos agem apenas em benefício pessoal, prejudicando boa parte da população e lesando a sociedade. É preciso fortalecer a moral para que essas regras sejam devidamente cumpridas e respeitadas. É necessário semear a ética em nosso pensamento para consolidar nossa moralidade. Mas é imprescindível ter escrúpulos para que nossa sociedade realmente seja justa, livre e fraterna.

Há mais de dois mil anos Alguém já falava sobre escrúpulos antes mesmo de termos nosso próprio idioma. “Faça aos outros o que queres que faça a ti mesmo”. Nessa mera comparação bíblica, certamente o conceito de escrúpulo extrapola a ética e a moral. Transcende os valores porque adota o pensamento de que o meu bem estar, a minha felicidade reside em que o outro também esteja bem e feliz. Baseia-se numa relação em que não existem perdas, em que o ganho é mútuo e justo. Em um conceito plenamente filosófico, agir com escrúpulos é pensar no outro sem deixar de pensar em si mesmo.

Se pudesse ensinar apenas uma coisa aos meus filhos Marcela, Caio e Nanda, poria um pequeno “scrupulum” em suas mãos e diria; “Ande sempre com essa pedra, e em todas as escolhas que vocês fizerem na vida, e certamente farão muitas, use essa pequena pedra para permitir que a balança de sua decisão nunca penda mais para um lado do que para o outro.”

*Augusto Césare é cardiologista e professor universitário

Obs; ESCRÚPULO é o nome de meu livro que está sendo escrito e espero editar em 2016.