MÉDICO DE HOMENS E DE ALMAS por Augusto Césare

Augusto Césare - 15 de July de 2017 (atualizado 24/Oct/2017 20h41)

“Seguramente Deus escolhe seus servos ao nascerem, ou talvez antes mesmo do nascimento.” EPICTETO

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Esse é o título de uma das obras literárias mais belas que já li. Escrita pela autora Taylor Caldwell com o título original Dear and Glorious Physician, ela nos conta a história de Lucano, um jovem de origem grega que estuda Medicina em Antioquia, se torna um evangelista e um dos maiores seguidores de Jesus Cristo.

Como toda história antiga, o romance envolve fatos conhecidos narrados através dos séculos por historiadores, romancistas e estudiosos. Textos em aramaico, grego antigo, latim e outros idiomas fornecem a base para a história de um único homem. Esse texto não busca resumir a história de São Lucas, mas sim busca trazer a essência do que é ser médico. Alguém que busca incansavelmente desafiar a morte, alguém que é escolhido para abrandar a dor, para combater o sofrimento e para consolar os feridos.

A Medicina evoluiu ao longo dos milênios. Desde os seus primórdios mais conhecidos da antiga Pérsia, do grande Ibn Sina, dos barbeiros cirurgiões, das primeiras escolas médicas, até os dias atuais com as grandes pesquisas científicas, a decodificação do DNA e a imensa tecnologia que foi incorporada, sobretudo nas últimas décadas. Sim a Medicina só trouxe mais qualidade e tempo de vida para o homem. Mas será que nos tornamos também melhores médicos? Será que ainda preservamos o espírito questionador de nossos antepassados? Nossos pacientes estão recebendo o que a Medicina possui de melhor?

Apesar de todo progresso científico e tecnológico, a Medicina ainda requer grande dedicação e conhecimento, ainda necessita de uma profunda interação entre o médico e seu paciente, entre o médico e a família. Cada vez mais o médico precisa de tempo para se dedicar aos estudos e às atualizações. O aprendizado é longo e os atalhos invariavelmente traiçoeiros. A Medicina do século XXI não tornou a prática médica mais fácil nem menos falível. A carga de conhecimento exigida a um médico recém-formado é muito superior ao que havia algumas décadas atrás, mas o tempo de graduação não mudou. Muitas faculdades de Medicina em nosso país possuem uma qualidade sofrível, o que torna ainda mais difícil a formação médica.

Aliado a uma graduação por vezes questionável, surge um problema mais grave ainda na formação do médico. Habilidade e competência. Antes de escolher qualquer profissão, o jovem deve se perguntar por essas duas características. A habilidade consiste na capacidade física, mental e cognitiva de ser médico. Destrezas que envolvem intelecto e condição psicológica satisfatória para enfrentar a rotina e o estresse dessa profissão. A competência é representada pela capacidade de enfrentar e superar desafios, de saber se colocar no lugar do outro, de tomar decisões rápidas e corretas em situações muitas vezes impróprias.

A motivação de muitos alunos está baseada no glamour da profissão, na perspectiva de sucesso pessoal e financeiro, na busca incessante de status ou na tentativa de realizar o sonho dos pais. Na ânsia de tentar ser médico, muitas vezes o questionamento das habilidades e competências é negligenciado, ou eventualmente adiado para outro momento. Muitos recorrem aos atalhos das faculdades bolivianas, cubanas e outras similares, incluindo algumas brasileiras, como forma de burlar o seleto filtro das habilidades e competências. A esperança de ter um diploma validado no Brasil através de meios legais, mas não necessariamente justos, nem sempre colocará mais um profissional competente no mercado.

Antes das faculdades médicas e do ensino formal conhecido hoje, os médicos obtinham sua titulação após anos de dedicação e estudos com um Médico Professor. Ao ser devidamente graduado, o profissional obtinha também o direito de lecionar. Muitos desistiam e outros não conseguiam. Hoje, ao ingressar em uma faculdade, é praticamente garantido que um dia o indivíduo irá se graduar. E, ao obter o diploma, poderá exercer sua atividade com todas as prerrogativas da Constituição Federal. Dentro da mais absoluta legalidade, a despeito de uma eventual imoralidade caracterizada pela falta de habilidade e competências.

Mas não é só a formação do médico que se encontra questionada. O sistema de saúde, sobretudo o sistema público de nosso país, talvez seja o maior entrave para uma medicina de qualidade. Nascido como uma forma de garantir o direito pleno do cidadão, o Sistema Único de Saúde (SUS) se tornou um gigante que consome boa parte da riqueza nacional e, mesmo assim, não consegue aplacar doenças extintas em outros países como Tuberculose, Febre Reumática e Doença de Chagas. Um sistema que permitiu o retorno da Sífilis e não reduziu a incidência de doenças crônicas. O cidadão brasileiro está vivendo mais em virtude do progresso da medicina e de suas tecnologias e não por conta de um sistema de saúde eficiente.

Esse cenário, muitas vezes desanimador e desolador, é a prática diária de muitos profissionais. Médicos, recém formados em sua maioria, submetem-se diariamente a uma rotina de trabalho em condições de extremo risco, sem uma adequada supervisão, sem suporte tecnológico mínimo e sem estímulo praticamente algum. Uma realidade bem distante de outros profissionais que trabalham em hospitais bem equipados, em consultórios particulares e seletos centros de pesquisa. Em condições ideais ou impróprias, o verdadeiro médico busca fazer o melhor.

Ouso dizer que, enquanto a Medicina evoluiu em sua essência e complexidade, a formação do profissional padeceu de sérios problemas, agravados mais ainda por uma política perversa de saúde pública e contratação de intercambistas despreparados. Por diversas vezes a prática médica passou a oscilar entre a ineficiência humanizada e a deficiência tecnológica, quando a essência pura da Medicina está no cientificismo associado a um profundo respeito e amor ao ser humano.

Dezoito de Outubro, dia em que se comemora o nascimento de São Lucas, é também o dia do médico. Uma profissão que já foi mais glamorosa, onde nossos mestres eram exemplos vivos de sabedoria e integridade, onde o paciente era reverenciado em sua fragilidade, onde nossos colegas eram amigos, não competidores. É possível ainda encontrarmos médicos e metres com esse espírito profissional. Se não somos todos, somos muitos, pois acreditamos que Medicina é ciência (bela e pura), e ela existe em benefício da obra mais perfeita que existe, o homem. O que tornou Lucano um médico de homens e de almas não foi apenas sua fé em Deus, mas a fé nos homens e na ciência. É assim que somos, é assim que devemos ser, pois cada verdadeiro médico traz consigo o peso de ter sido escolhido.

Ao Dr. Yulo Césare. Pai amado que me ensinou a gostar de livros, filmes e música. Cardiologista que me mostrou literalmente os primeiros passos do coração. Professor que me ensinou que qualquer profissão precisa ser exercida com amor, mas apenas a Medicina escolhe àqueles que realmente a amam.