O sentido da vida por Augusto Césare

Augusto Césare - 08 de May de 2017 (atualizado 08/May/2017 13h17)

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Por Augusto Césare*

Estima-se que 92 a 97% da população mundial creem em Deus. Independente da religião professada, ou mesmo da certeza ou dúvida da existência divina, qualquer ser humano se perguntará um dia qual o sentido da vida? Mesmo para os que acreditam que somos frutos de um acaso na cadeia evolutiva e que o universo é um conjunto de complicadas reações físicas e químicas, a pergunta é sempre pertinente. Alguns acham que não existe sentido específico, o que definitivamente também é uma resposta, filósofos e teólogos podem discorrer uma eternidade sobre a pergunta e minimalistas buscarão respostas simples e objetivas, mas ninguém permanece impassível ao questionamento.

A resposta ao sentido da vida começa por outra pergunta tão profunda quanto à primeira, quem sou eu? A resposta ao sentido da vida não é uma ponderação genérica, é uma reflexão íntima, pessoal, individual. E só poderemos saber o sentido que a vida nos dá, na medida em que passamos a entender mais sobre nós mesmos. Mas descobrir-se é tão difícil quanto entender a complexidade do universo, mas talvez homem e universo sejam mais próximos do que se imaginam. Dizem que somos como “poeira de estrelas” e realmente é isso que somos. A composição química do homem basicamente é de Carbono, Hidrogênio, Nitrogênio e, é claro, Oxigênio. Mesma composição das estrelas, mas diferente da crosta terrestre que é rica em Silício, Alumínio, Ferro e Oxigênio. Talvez isso não seja importante para a maioria das pessoas, mas reforça a ideia de que talvez tenhamos mais conexão com as estrelas do universo do que com nosso planeta natal.

Entender cientificamente a origem de nossa existência seria a resposta que buscamos do sentido da vida? Saber que estamos intimamente conectados ao universo responde o sentido que a vida tem? Engana-se quem acha que vai ler esse texto e encontrar uma resposta lá no final. Sinto despontá-los, mas tenho muito mais perguntas e reflexões do que respostas.

Um filme recente tocou-me profundamente no questionamento do sentido da vida. “Beleza Oculta”, com o título original “Colateral Beauty” é uma atuação majestosa de Will Smith que proporciona uma reflexão importante sobre as três principais abstrações de nossa vida. O tempo, a morte e o amor. São abstrações porque, apesar de sabermos de sua existência, não são objetos físicos palpáveis ou mensuráveis. Podemos apenas estima-los subjetivamente ou através de preceitos que criamos.

O que é o tempo? Estabelecemos uma forma de dividi-lo em dias, horas e minutos para termos a impressão que o controlamos, mas na verdade o tempo não é uma simples medida linear. As mesmas horas soam diferente para quem aguarda o nascimento de um filho, para quem está sofrendo de uma doença ou para quem precisa decidir como salvar uma vida. Veja quantas vezes somos traídos pela justificativa de que não temos tempo. Na verdade, nunca podemos reviver o passado e nem podemos antever o futuro. O único tempo que temos é o presente, e ele é o bastante para sentir a emoção do nascimento de um filho, é suficiente para pedir perdão pelos nossos erros, e é pleno para salvar vidas, inclusive a própria.

Geralmente temos o tempo como um inimigo. Algo que tira nosso momento de prazer ou que impede a realização de um desejo. A cruel abstração temporal que não permite que possamos perpetuar aquele átimo de segundo da mais plena felicidade. Como seria bom se o tempo não existisse! Poderíamos viajar e reconstruir nosso passado, visitar nosso futuro e ver se fizemos as escolhas certas, repensar diuturnamente nosso presente até transformar nosso sonho em realidade.

A morte talvez seja ainda mais ingrata que o tempo. Pairando sobre nossas cabeças como a “única certeza que temos em vida”, a morte espreita nossa existência como um predador observa sua presa, estudando seu comportamento, suas ações, suas dúvidas, sua insegurança. Mas o que é a morte? O ser humano cresce sabendo que um dia irá morrer, mas poucas vezes reflete que todos os dias anteriores serão vividos, e não será o tipo de morte que determinará sua existência, mas o tipo de vida que você teve.

Mesmo quando vinda de forma caridosa para aplacar o sofrimento de alguém, a morte é sempre uma companheira incômoda. A morte é natural. Aos nossos olhos pode parecer injusta ou precoce, pode ser extremamente dolorosa como a perda de um filho ou plenamente apaziguadora como o silêncio de um idoso. Talvez a morte nos assuste tanto porque pensamos na vida que foi roubada ou na eventual vida que teremos depois, mas quase nunca nos preocupamos na vida que nos foi oferecida antes.

O amor é a grande inspiração dos poetas. Essa abstração que não pode ser explicada cientificamente como a morte, nem pode ser mensurada hipoteticamente como o tempo, é um sentimento que consegue preencher nossa existência de forma plena. Cientistas podem senti-lo, mas não conseguem explica-lo. Ateus podem não crer em Deus, mas certamente creem no amor. Filósofos e antropólogos podem refletir sobre a história da humanidade, mas não podem explicar o amor de uma mãe pelo filho. Nesse contexto, o amor é a abstração mais pura que o homem consegue vivenciar. Mas o amor também pode ser cruel como o tempo e a morte. Se não existisse amor não teríamos saudade, não teríamos a dor da perda, o sofrimento da desilusão, a tristeza da paixão não correspondida. E muitas vezes vemos o ser humano vivenciar mais a decepção e a dor do que o amor que precedeu a perda. E o homem, já desacreditado de si mesmo, prefere negar a abstração do amor para não ter que encarar o sofrimento.

Richard Dawkins, ateu convicto e autor de grandes livros sobre evolução e genética, causou espanto quando publicou “Deus é um delírio”. Acho que o correto seria dizer que Deus é uma abstração. Uma grande abstração mais intensa que o amor, que mesmo não podendo ser provado ou explicado, pode ser sentido. Mais inexorável que a morte, que é a representação mais concreta da vida. E mais presente que o tempo, que não sendo linear, não tem começo ou fim. Como qualquer abstração, Deus existe na individualidade do ser humano. Percebê-Lo é uma escolha.

Talvez o sentido da vida, e entendam que não faço nada além de conjecturas pessoais, esteja na forma como lidamos com essas abstrações. Podemos fazer do tempo um adversário a ser superado ou um companheiro de viagem. Podemos lidar com a morte como um desafio a ser vencido ou como uma razão para se viver. Podemos deixar de amar por medo de perder ou viver intensamente o amor por mais breve que possamos sentir. O sentido da vida não reside em respostas prontas, fórmulas mágicas, tratados filosóficos ou estudos sociológicos. O sentido que damos às nossas vidas relaciona-se às nossas escolhas, à forma como vivemos, amamos e sentimos.

Aproveite o tempo.

Ame intensamente.

A morte é um dia, a vida são todos os outros.

*Augusto Césare é médico cardiologista e mestre em medicina humana