Agroecologia e Biofilia: a favor da vida por Edvaldo Reinaldo

Edvaldo Reinaldo - 15 de July de 2017 (atualizado 18/Aug/2017 12h43)

Especialista em agroecologia da Bahiater faz um ensaio sobre a preservação do planeta para as próximas gerações, agrotóxicos como agente poluidor e a importância das sementes crioulas para a biodiversidade.

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Assistência Técnica Agroecologica - A esquerda, os produtores Renilson Machado e Ademir Barreto; a direita, Bernadete Barreto, Edvaldo Reinaldo (Bahiater) e Raimundo Luís (Bahiater) na Fazenda Santa Rita, localizada  na comunidade de Jurema dos Machados em São Gabriel/BA (Edvaldo Reinaldo/Arquivo Pessoal)

 

O Planeta Terra não pertence apenas à humanidade atual, pertence também às futuras gerações e a todas as espécies de vida que aqui habitam. Precisamos preservar os bens naturais para garantir a qualidade de vida para as próximas gerações, afinal, nossos netos, bisnetos e tataranetos também merecem desfrutar desse planeta, bebendo água boa, respirando ar puro e comendo alimentos saudáveis, livres de agrotóxicos e transgênicos.

A consciência ecológica presente em cada ser humano, precisa ser despertada. O amor à vida, o instinto de conservação, ou seja, a biofilia deve estar presente na mente de cada ser humano. É necessário quebrar a dormência dessa minúscula semente, contida no inconsciente coletivo, independentemente de crença ou bandeira ideológica. É necessário preservar a qualidade da vida.

A hipótese da biofilia do ecologista americano Edward Osborne Wilson, afirma que nós, homens e mulheres, possuímos uma ligação emocional inata com todos os organismos vivos e com a natureza. O termo inato sugere que essa ligação emocional encontra-se em nossos genes, ou seja, tornou-se hereditária, certamente porque a humanidade não se desenvolveu nas áreas urbanas ou nas cidades, mas sim em convivência íntima com o ambiente natural, ou seja, com a natureza.

A Mãe Natureza recusa com firmeza qualquer gole de agrotóxico ou de outros tóxicos que o ser humano vem derramando, forçadamente, pelas gargantas e poros do nosso planeta. Nesse planeta existem várias gargantas, a exemplo de nascentes, rios, poços artesianos e solos. Esses produtos estão asfixiando e intoxicando o nosso planeta e causando agonizações em todos os seres vivos, inclusive na espécie humana, com o afloramento de muitas doenças, entre elas o câncer, que cada dia mata mais pessoas.

Vale a pena ficarmos alerta com as aplicações de agrotóxicos nos solos e nas plantações, pois esses venenos dirigem-se normalmente para córregos e rios, águas subterrâneas e para atmosfera, contaminando inclusive a água da chuva. Pesquisas apontam a presença de agrotóxicos em águas subterrâneas em várias regiões do Sul do Brasil, com cultivo de arroz. Estudos do IBGE (2011) constatou que os resíduos de agrotóxicos são a segunda maior fonte poluidora das águas brasileiras, ficando em primeiro lugar os esgotos sanitários.

Essa preocupação também deve ser aplicada ao Território de Irecê. Queremos que o nosso Território tenha as suas águas subterrâneas isentas de agrotóxicos, assim como suas águas superficiais. Deve-se evitar manusear agrotóxicos perto de rios e poços para evitar contaminações, pois a água é fundamental para a vida, e é um patrimônio de todos e não podemos negligenciar esse bem natural.

O homem vem perdendo o controle e a ética durante a sua atividade agropecuária com o uso de agroquímicos. Para muitos, o cuidado com a contaminação da água e dos alimentos é besteira e o que vale é apenas o capital financeiro. Conforme afirma Gandhi, há recursos suficientes no planeta para atender às necessidades de todos, mas não o suficientes para satisfazer a avidez de alguns.

Na realidade, nós brasileiros, estamos consumindo um coquetel de agrotóxicos. A ANVISA (Agencia Nacional de Vigilância Sanitária) já verificou até dez tipos diferentes de agrotóxicos em um único alimento. Essas combinações de agrotóxicos não são avaliadas em laboratório para registro e uso. Se um único agrotóxico já representa risco de provocar câncer, essas misturas representam um risco ainda maior.

Apesar de não acreditarmos existir um uso seguro para aplicação de agrotóxicos, respeitamos os profissionais e agricultores que utilizam os agroquímicos, seguindo no mínimo as orientações da própria indústria, que alerta em suas recomendações sobre o perigo desses venenos, salvaguardando a água e respeitando a carência de aplicação para o período de colheita dos alimentos.

Somos contra o uso de agrotóxicos, transgênicos e do desmatamento desenfreado, pois a nossa defesa é da agricultura agroecológica com proteção ambiental e produção de alimentos saudáveis, sem resíduos de agrotóxicos cancerígenos.

As sementes transgênicas promovem o crescimentos de pragas resistentes e causam a erosão genética, ou seja, a contaminação de variedades de sementes, através do cruzamento ou polinização com plantas transgênicas pelo vento e insetos, ocasionando a perda da biodiversidade genética.

Atualmente estamos assistindo uma redução crescente de variedades de sementes, antes ofertadas no mercado. Existe uma clara disposição para o crescimento e ofertas de sementes transgênicas e para sementes híbridas. Essa realidade vem prejudicando a formação de bancos de sementes, que é peça fundamental para elevar o  nível de autonomia dos agricultores, além de preservar o patrimônio genético de sementes e a biodiversidade.

O Brasil hoje tem o triste título do maior mercado mundial de agrotóxicos. Podemos em breve conquistar um outro título sombrio: a de maior área de cultivo de sementes transgênicas do mundo. Por enquanto estamos em segundo lugar, perdendo apenas para os Estados Unidos. Em 2016 atingimos 49,1 milhões de hectares cultivados com sementes transgênicas.

Grande parte dos agricultores, não só do Brasil como do mundo, preservam suas sementes para as próximas plantações. As melhores variedades de sementes crioulas são selecionadas e armazenadas, garantindo as características genéticas da planta, ou seja, produtividade, resistência a ataque de doenças e insetos, entre outras características importantes identificadas pelo agricultor. Enquanto que as sementes transgênicas não guardam o seu potencial produtivo para as próximas plantações, obrigando o agricultor a efetuar novas compras de sementes com preços elevados.

Sementes crioulas são sementes tradicionais, melhoradas e conservadas pelos agricultores, indígenas, povos da florestas e comunidades quilombolas ao longo dos anos. Essas sementes são adaptadas às condições de solo e clima de cada região. Elas representam a riqueza cultural de povos e conservam a tradição milenar da manutenção da diversidade biológica, com valorização da fertilidade natural dos nossos solos. A conservação das sementes crioulas é necessária para garantir a soberania alimentar de um país e elevar o nível de autonomia dos agricultores.

Estamos vivendo hoje o afunilamento da alimentação. A alimentação está a cada dia mais artificializada. Estamos deixando de consumir o verdadeiro alimento para consumir supérfluos e alimentos feitos em laboratórios. Quanto maior as variedades de alimentos orgânicos consumidos, mais saúde teremos. O grego Hipócrates, considerado o Pai da Medicina, já alertava a humanidade há 300 anos antes da vinda de Jesus Cristo: seja o teu alimento o teu medicamento e seja o teu medicamento o teu alimento.

Na visão agroecológica a vida é prioridade e para priorizarmos a vida precisamos seguir os ensinamentos da natureza. A Mãe Natureza mostra o caminho da diversidade, ou seja, da biodiversidade. Olhando a Natureza poderemos viabilizar propriedades produtivas mais resilientes, com práticas de policultivos, sistemas agroflorestais, cobertura do solo com a matéria orgânica, utilização de espécies forrageiras adaptadas ao nosso clima e criação de animais adaptados ao clima e a região. Quanto maior a agrobiodiversidade, maior será a resiliência da propriedade para enfrentar situações adversas, como o período de estiagem e altas temperaturas.

Para continuarmos produzindo alimentos no semiárido, com redução de riscos de insucessos, devemos desenvolver a agricultura de base agroecológica, valorizando culturas adaptadas e conservando ao máximo a fertilidade natural dos solos, aproveitando de forma racional a água. A seca é uma conotação política, que só existe quando não tomamos nenhuma medida para enfrentar o período de estiagem, já esperado por todos nós do Semiárido. Precisamos aproveitar os períodos de chuvas para nos prepararmos para o período da estiagem.

Na realidade, somos eternos aprendizes e precisamos valorizar mais a vida e as coisas simples, não devemos permitir que os interesses monetários sobrepujem e prejudiquem os interesses da maior parte da humanidade, que é viver com qualidade, usufruindo dos bens naturais presentes no nosso planeta.

Perguntaram ao Dalai Lama Tenzin Gyatso (Líder temporal e espiritual do povo tibetano): O que mais te surpreende na Humanidade? E ele respondeu: Os homens... Porque perdem a saúde para juntar dinheiro, depois perdem dinheiro para recuperar a saúde. E por pensarem ansiosamente no futuro, esquecem do presente de tal forma que acabam por não viver nem o presente nem o futuro. E vivem como se nunca fossem morrer... e morrem como se nunca tivessem vivido.

Edvaldo é engenheiro agrônomo especializado em agroecologia e atua pela Superintendência Bahiana de Assistência Técnica e Extensão Rural (BAHIATER/SDR)