Comportamento

A necessidade da “ecdise humana”

Cultura&Realidade - 18 de Abril de 2019

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Foto: Ilustração

Por: Arlicélio Paiva, professor doutor da UESC, Ilhéus, Bahia.

O esforço que faz uma cigarra (e outros animais) para renovar o tegumento (revestimento do corpo) é chamado de ecdise. Trata-se de um importante processo de evolução e crescimento contínuo para a cigarra, pois é essencial para que ela se adapte a diferentes tipos de ambientes. Como ela gasta muita energia nesse processo de mudança, acaba ficando fragilizada por certo tempo, podendo ser atacada por predadores.

No presente texto, tomo a liberdade de empregar o termo ecdise para os seres humanos, não como uma simples renovação da pele, mas no sentido de mudança de comportamento, quando o indivíduo adota atitudes com novos propósitos, que impedirão o seu retorno ao ponto evolutivo em que se encontrava.

Essa mudança pode ser adquirida ao longo do tempo quando a pessoa passa por cada fase do seu desenvolvimento. Nesse caso, a ecdise é horizontalizada, suave, sem mudanças emocionais repentinas, amparada pela família, orientada pela escola e compartilhada com os amigos.

Mas, existe a ecdise abrupta, motivada por determinadas circunstanciais. Ela é verticalizada, tal qual uma barreira intransponível. Como a pessoa não sabe o que tem por trás, nem mesmo tem noção de como escalar, é natural que ocorram emoções muito fortes. Essa situação pode levar à desorientação do indivíduo por determinado tempo. Nesse tipo de ecdise, muitas vezes, não há amparo nem orientação adequados, a pessoa pode viver momentos angustiantes, de solidão, passando um bom tempo tragando, remoendo e meditando sobre a nova experiência que está vivenciando, e que a impedirá de ser a mesma pessoa.

ecdise verticalizada pode ser motivada pela leitura de um livro, pela audiência de um filme, pelo convívio com pessoas de ideias diferentes, por inspiração em um personagem de novela, pela audição de uma música ou conjunto da obra de um artista ou por uma indesejada situação conflituosa. Para isso, o indivíduo tem que ter predisposição e possuir receptores sensíveis a uma nova situação que pode gerar ação e comportamentos diferentes daqueles da sua zona de conforto. Como acontece com a cigarra, a “ecdise humana” é necessária para que ocorra adaptação a diferentes tipos de ambientes. Seja qual for o motivo, esse tipo de ecdise pode levar a uma situação de medo, insegurança e indefinição. Considere-se aqui que o emprego de energia também é muito grande, com possibilidade do indivíduo ficar momentaneamente mais frágil e vulnerável, semelhantemente à cigarra.

Nesse caso, a primeira análise a ser feita é sobre as consequências da nova escolha, já que pode ser um caminho sem volta. As decisões devem ser amparadas na observação cuidadosa sobre qual será a maneira mais correta de agir, levando em conta que as opções não venham a ser conflituosas ou mesmo provocar dor e sofrimento para si, nem para as pessoas com as quais convive. Para isso, é necessário vencer o medo ao assumir a nova posição, seja ela qual for.

 Um bom exemplo de “ecdise humana verticalizada” foi o que ocorreu com o célebre compositor clássico alemão Ludwig van Beethoven que depois de ter sido acometido pela surdez que o deixou angustiado, transpôs a barreira vertical e não teve medo de dizer aos seus amigos que não estava satisfeito com o trabalho feito até então e que pretendia adotar um novo caminho daquele momento em diante. Como resultado desse ato de adaptação ao novo tipo de ambiente — a surdez completa —, Beethoven compôs algumas das suas obras mais importantes, dentre elas a Nona Sinfonia!

Ao encarar a ecdise como um processo natural, essencial ao desenvolvimento e à transformação do indivíduo, o medo se torna secundário, com importância temporária. Como disse Alexandre, o Grande – “vence o medo e vencerás a morte”. Afinal, “os covardes morrem várias vezes antes da sua morte, mas o homem corajoso experimenta a morte apenas uma vez” (William Shakespeare).