CRÔNICA

A relação entre o inferno de Sísifo e o governo Bolsonaro!

Cultura&Realidade - 06 de Março de 2019 (atualizado 06/Mar/2019 16h04)

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Ilsutração, por Linho Costa

O inferno de Sísifo é a trágica condenação de estar empregado em algo que a nada leva. Assim tem sido a política do governo Bolsonaro. Em dois meses, que pareceram um ano, as polêmicas inúteis prejudicam as reformas e colocam os militares numa saia justa.

 

Por Linho Costa

Em novembro de 2010 escrevi um artigo para o Jornal Direitos, do meu amigo Vercil Rodrigues com esse mesmo tema, usando um pouco de mitologia grega para ilustrar uma situação no Conselho Municipal de Assistência Social.

Usarei novamente o inferno de Sísifo para explicar uma situação que já se tornou peculiar na política nacional. Sísifo fora condenado pelos deuses a realizar um trabalho inútil e sem esperança por toda a eternidade: empurrar sem descanso uma enorme pedra até o alto de uma montanha de onde ela rolaria encosta abaixo para que o herói mitológico descesse em seguida até o sopé e empurrasse novamente o rochedo até o alto, e assim indefinidamente, numa repetição monótona e interminável através dos tempos. O inferno de Sísifo é a trágica condenação de estar empregado em algo que a nada leva.

Assim tem sido a política do governo Bolsonaro, em dois meses que pareceram um ano: as polêmicas inúteis criadas entre as escolhas dos ministros; o laranjal do clã/Queiroz com sua insistência em não dar explicações; a subserviência aos americanos; as trapalhadas do ministro da educação; a ignorância do já condenado em 1ª instância por improbidade, Ministro do Meio Ambiente com relação ao desconhecimento do legado de Chico Mendes; da insistência do presidente em não ter um plano de comunicação e com isso usar o Twitter como único canal; o caso do laranjal do PSL com notório envolvimento de Carlos Bolsonaro chamando o então Ministro Bebianno de mentiroso e depois confirmado pelo próprio pai.

Nos três últimos dias, mais demonstrações de polêmicas inúteis que podem prejudicar, inclusive a reforma da Previdência:  o caso da carta do ministro da Educação, o do filho do presidente, Eduardo, defendendo o muro dos Estados Unidos contra o México, e o do presidente Jair Bolsonaro, chamando de estadista o chefe de uma cleptocracia sanguinária que dominou os paraguaios por 35 anos.

Do início do mandato até agora a lista é imensa, um trabalho digno do inferno de Sísifo, só criando polêmicas inúteis. Perdemos tempo com uma agenda que deveria ser mais produtiva. Temos questões graves a serem resolvidas.  Num café da manhã, dia 28, Bolsonaro disse a jornalistas que o governo pode ceder a Proposta da Reforma da Previdência no que tange aumentar de 65 para 70 anos a idade mínima para idosos em condição de miserabilidade ou ainda reduzir cortes nas pensões de viúvas e órfãos, a bolsa de valores entrou em curto circuito.

Nesta terça-feira gorda, 5, fez um post escatológico http://encurtador.com.br/dmsN5  digno de um  internauta aloprado, de uma pessoa que não tem a mínima noção do cargo que ocupa, acredito que os generais que o apoiam ficaram de cabelo em pé e remeteram à sua ficha de oficial problema do Exército Brasileiro.

A única coisa mais próxima da realidade foi Bolsonaro ter recebido os líderes de governo que ele tanto dizia que não ia receber. Mais um recuo de um presidente que ainda não compreendeu o cargo, que dá ênfase em demasia a sua base nas redes sociais incentivando a guerra cultural e pouco se lixa para questões de debates importantes que amadurecem discussões e quase sempre se transformam em leis que geram impactos sociais importantes.

Já o vemos fazer o jogo do toma lá dá cá, o ato mais expressivo da velha política, pelo menos, como disse Josias de Sousa, do Blog do Josias: “o capitão trocou o modelo agulha por um discreto salto Anabela, mais compacto e próximo do chão. Ao receber para uma conversa os líderes partidários que desejava desprezar, Bolsonaro foi convidado a calçar as  sandálias da humildade.”

Finalizo o Crônica em Pauta de Hoje com a frase de Ilona Szabó: “Ficou claro que o presidente Bolsonaro ainda não se elevou à altura do cargo que ocupa”.

Ouça na voz de Linho Costa; https://soundcloud.com/linho-costa/cronica-em-pauta-bolsonaro-e-o-inferno-de-sisifo

Publicado originalmente em www.voceempauta.com.br