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Politica

As contradições do "homem da mala de Temer" e o show frente à Justiça, na tentativa de negar o crime

João Gonçalves - 12 de Novembro de 2018

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O teatro do Rodrigo Rocha Loures, em novo depoimento - Foto: Dilvugação

Rodrigo Rocha Loures, ex-deputado e ex-assessor especial do presidente Michel Temer, afirmou em depoimento ao juiz da 15ª Vara Federal de Brasília, Jaime Travassos, que nunca abriu a mala recebida da JBS com R$ 500 mil, em 2017.

Durante o depoimento, divulgado pelo jornal O Globo, Rocha Loures chorou. Disse que entrou em pânico ao pegar a mala e por isso saiu correndo.

O ex-deputado é réu por corrupção passiva no processo que trata sobre o caso. Rocha Loures foi filmado pela Polícia ao receber a mala do ex-executivo do grupo J&F Ricardo Saud em uma pizzaria em São Paulo. Segundo o Ministério Público, o dinheiro seria propina para Temer, que nega as acusações.

Rocha Loures ficou conhecido como o “homem da mala de Temer”.

Esta foi a 1ª vez que o ex-assessor do presidente falou sobre o caso, mas entrou em contradição com a versão apresentada pela defesa.

Segundo O Globo, os advogados haviam apontado que o ex-deputado recebeu a mala “sem saber qual era seu conteúdo”. À Justiça, embora Rocha Loures afirme nunca ter aberto a mala, ele deixa claro que sabia que havia conteúdo ilícito. Disse ainda que não queria recebê-la.

Rocha Loures teve 2 encontros com Saud em 28 de abril de 2017. O 1º foi em 1 shopping no qual o executivo lhe informou sobre a mala.

No 2º encontro, na pizzaria, o ex-deputado relatou que tinha o objetivo de encerrar as tratativas ilícitas, mas acabou saindo de lá com uma mala de dinheiro. Saud esperava no estacionamento da pizzaria e Rocha Loures, depois, iria ao aeroporto.

Quando estou saindo, ele diz assim ‘Rodrigo, Rodrigo’. Eu vou até ele, aí ele pega, com esta mala na mão, diz assim ‘olha a sua mala, pega que você vai perder o avião, corre que você vai perder o avião’.

Rocha Loures afirmou ter entrado em pânico.

“Naquele momento, Excelência, eu entrei em pânico, no meio da rua, e saí correndo. As imagens, eu não sabia o que fazer. E eu fugi. Eu corri. Eu não consegui eventualmente agredi-lo se fosse o caso. E me desfazer dessa situação ali, naquele momento, até pra que ficasse gravado. E o meu inferno começou. Eu pego essa mala, deixo na casa dos meus pais, aonde eu tenho lá 1 quarto de hóspedes, coloco dentro do armário e eu não sei o que fazer”, disse. 

Diante da narrativa de Rocha Loures, o juiz faz questionamentos incisivos para saber por que ele continuou mantendo encontros.

Eu quero saber o que justificou a 1 deputado federal com uma ampla história profissional e pessoal a se seduzir por esses convites, e chegar a se reunir com pessoas que o senhor afirma que não tinha empatia pessoal, 4 dias após 1 primeiro encontro, que já lhe sugeriu algo que não encaixava as peças do quebra-cabeça“, questionou.

O ex-deputado respondeu que Michel Temer havia pedido para ouvir as demandas da JBS.

“O presidente [Michel Temer] havia pedido para eu ouvir as demandas do grupo [JBS]. O presidente não pediu pra eu resolver, nem fazer ilícitos com quem quer que seja, o presidente pediu pra ouvir as demandas do grupo. Então, excelência, até prova em contrário, ou até mudar esse acordo com o presidente, eu sou uma pessoa solícita, mas eu não sou venal, não sou corrupto“, disse.

De acordo com delatores da J&F, o dinheiro que estava na mala era parte de 1 suborno que valeria por 20 anos. Era uma espécie de mesada para Rocha Loures e para Temer em troca de atuação junto ao Cade (Conselho Administrativo de Defesa Econômica).

O objetivo era resolver uma disputa sobre o preço do gás fornecido pela Petrobras a uma termelétrica do grupo J&F.

Sobre o encontro de Joesley com Temer no Palácio do Jaburu, Rocha Loures disse que o horário foi a pedido do presidente. Segundo ele, Temer tinha 1 compromisso anterior e por isso recebeu o empresário às 22h.

“Não participei da reunião, só vai a casa do presidente quem é convidado por ele. Aliás, só vai à casa de alguém quem é convidado pelo dono da casa, não por quem está sendo convidado. E é assim. Esse é o protocolo”, afirmou.

Foi nessa ocasião que Joesley gravou a conversa dele com o presidente. O conteúdo do diálogo que levou a PGR (Procuradoria Geral da República) denunciar o presidente.

A denúncia teve o prosseguimento barrado pela Câmara dos Deputados e será analisada pela Justiça após o término do mandato de Temer, em janeiro de 2019.