Irecê e Região

Canoão de Ibititá: um ano sem Ademir. Família clama por justiça e reclama de negligência dos responsáveis

Cultura&Realidade - 03 de Janeiro de 2020 (atualizado 03/Jan/2020 21h55)

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Ademir Marques de Souza, morto por descarga elétrica nos festejos de Santos Reis em Canoão de Ibititá - Foto: Arquivo da família

Familia resolveu ajuizar contra a Coelba, a Prefeitura de Ibititá, a rádio Lider FM e seus sócios

Noite do dia 5 de janeiro de 2019. A estrada que liga Irecê ao Distrito de Canoão, em Ibititá se encontrava tomada de veículos que transitavam transportando pessoas para os tradicionais festejos de Santos Reis. Ruas da comunidade tomadas de gente, barracas de bebidas e comidas, com escassos locais de estacionamento. O clima era de alegria.

A energia da festividade tomava conta dos foliões, moradores e visitantes. Os organizadores felizes com o sucesso da mobilização e aceitação do público.  O que ninguém sabia é que aquela noite daria início ao pesadelo da família de dona Neuraci Marques de Souza, 60 anos, pensionista do INSS e agora viúva.

AVISOS ANTES DA MORTE - Vários “avisos” foram dados para que se evitassem a tragédia. Por volta das 21:40h, o empreendedor individual Fábio Marques de Souza, filho de Ademir, se encontrava em sua banca de churrasquinho, quando viu a repórter Kaila Dourado, da rádio Irecê Líder FM tocar no corrimão metálico de acesso ao estúdio da emissora, que fazia cobertura do evento ao vivo. Ela teve um sopapo e foi jogada ao chão. Afirmou ele em seu depoimento ao Delegado Paulo Ribeiro, que presidiu o inquérito. Câmeras do “Mercadinho Deca” do comerciante José Gomes Sobrinho registraram o fato. 

Outras pessoas, no transcurso da noite que tocaram nas estruturas do estúdio da emissora, também tomaram choques leves, sem que ninguém adotasse as providências para sanar o problema, até que, por volta de 00h20, após chuvas que caíram, o pequeno agricultor familiar Ademir Marques de Souza, tocou em uma escada metálica acostada no estúdio e teve uma forte descarga elétrica, sendo lançado ao chão. Levantou-se cambaleante, desnorteado, e, buscando onde se segurar, tornou a se apoiar em estrutura metálica ligada ao mesmo estúdio e sofreu uma segunda descarga elétrica. Fatal.

Socorristas do Corpo de Bombeiros Civil que prestavam serviços ao evento, fizeram os primeiros atendimentos, conduzindo a vítima para o pronto socorro mais próximo, em Ibipeba, onde já chegou sem vida.

INVESTIGAÇÕES - O delegado titular do caso ouviu diversas testemunhas que apontaram a existência de corrente elétrica do estúdio móvel da emissora citada. A Certidão de Óbito emitida em 22 de janeiro daquele ano confirmou a causa da morte de Ademir por “múltiplas lesões de órgãos, eletroplessão e eletricidade artificial”, o que foi ratificado pelo laudo de exame de necrópsia 21914PM000061-01, emitido pela Perícia Técnica da Polícia Civil atestando os testemunhos e as imagens do “Mercadinho Deca”.

NEGLIGÊNCIA - O dia era de festa. Ademir foi pra a rua se divertir, acompanhar sua família. Morreu aos 66 anos, após 43 de convivência amorosa e pacífica com a sua esposa e filhos. Deixou viúva dona Neuraci e órfãos seus cinco filhos, alguns desempregados, vivendo com baixa renda: Cleudi, Ted Carlos, Plácido, Fábio e Erivelton.

Segundo Erivelton Marques de Souza, um dos cinco órfãos, nenhum socorro foi prestado pelos responsáveis. “Mesmo depois da morte do meu pai ninguém nos procurou para saber a situação da família com a perda do seu mantenedor”, disse ele, acrescentando que até mesmo o funeral foi custeado pela família, pago à prestação. “Nem a rádio Líder nem ninguém da Prefeitura nos procurou para absolutamente nada”, afirmou.

A família e amigos iriam fazer um movimento pedindo justiça nos festejos deste ano... tava tudo pronto, mas cancelaram a festa - Foto: Pessoal

MANIFESTO SERIA FEITO NAS FESTAS DESTE ANO - Ainda de acordo com Erivelton, um grupo de familiares e amigos estavam se preparando para um manifesto durante os festejos deste ano, com faixas, cartazes e gritos de ordem clamando por justiça, mas a prefeitura, de última hora, cancelou os festejos, alegando as chuvas que estão ocorrendo na região.

PROCESSO – De posse dos depoimentos, imagens, certidão de óbito, perícia técnica e conclusões do inquérito, a família, representada pelo advogado Dr. Edivaldo Martins de Araújo entrou com ação na justiça contra a Coelba – Companhia de Eletricidade do Estado da Bahia, contra a Prefeitura de Ibititá, representada pelo prefeito Cafu Barreto, as empresas rádio Lider FM, Mega Posto Líder (dona do caminhão em que estava instalado o estúdio da emissora), Avante Promoções e Publicidade e seus sócios José Sidney de Souza, Charles William Gomes de Souza e Rudi Fernando Gomes de Souza.

De acordo com a petição elaborada pelo advogado, a Coelba deve ser responsabilizada em razão do seu compromisso objetivo, pois a mesma “tem o dever de prestar seus serviços de forma segura, principalmente pelo risco que estes representam, cabendo-lhe a fiscalização..., com  a finalidade de garantir uma prestação de serviço adequada”, assegura Dr. Edivado Araújo, salientando que a festa é tradicional e amplamente divulgada, a qual exige uma demanda de energia diferenciada, de modo que a Coelba negligenciou-se na sua responsabilidade fiscalizatória.

“A Prefeitura e os demais responsabilizados são organizadores e prestadores de serviços do evento, logo tiveram ligação direta com o ocorrido, que resultou na morte do agricultor”, afirma o advogado.

SIDNEY RESPONDE - Abordado sobre o assunto, o empresário  Jota Sidney disse que “em relação ao acidente, o Grupo J. Sidney de comunicação prestou todos os esclarecimentos necessários às investigações, bem como forneceu toda a documentação que alicerça a regularidade dos seus equipamentos às autoridades responsáveis e continua à disposição para dirimir qualquer dúvida que eventualmente venha surgir”, disse ele em resposta à redação.

Sidney salientou ainda que “quanto à família pranteada, assim como fizemos na ocasião do acontecimento, prestamos toda a nossa solidariedade”, concluiu.

Em seu depoimento ao Delegado de Polícia, ele confirmou a presença do seu estúdio no evento para a prestação de serviços contratados verbalmente pela prefeitura de Ibititá e que acessou a tomada de fornecimento de energia elétrica disponibilizada pela prefeitura.

ELETRICISTA DA PREFEITURA - O eletricista da Prefeitura, Renan Rosa Rocha assegurou em seu depoimento ter cumprido todos os protocolos no fornecimento de energia. Ele disse que instalou tomadas de acesso à energia para os palcos, barracas e também para os estúdios das emissoras de rádio seguindo todas as normas e que testou uma por uma. “Para as emissoras de rádio Caraíbas FM e Lider FM deixei duas tomadas com disjuntores de 15 amperes, com cabo revestido de borracha isolante, há 3 metros (alto do solo)... e que a partir de cada disjuntor a responsabilidade era do pessoal de cada veículo (rádio)”.

Antes do início das férias forenses, o processo havia sido sorteado para a Segunda Vara Cível, a qual não tem competência para a gestão do mesmo, uma vez que a Prefeitura de Ibititá é parte, sendo então redistribuído para a Primeira Vara Cível, que deverá ser provocada pelo advogado da causa imediatamente ao retorno das atividades.

A família espera uma indenização por danos morais, pela ausência do seu mantenedor e especialmente por um apenamento pedagógico, para que as pessoas tenham cuidado na hora e realizar serviços e eventos públicos, sem ter que expor as pessoas ao risco de morte.

Da Redação