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Cultura, Esporte e Lazer

Intercâmbio quilombola reafirma  cultura e identidade negra no Território de Irecê

Cultura&Realidade - 25 de Outubro de 2017

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Momentos de religiosidade de matriz negra, durante o intercâmbio - Foto: Uilson Viana

Por Uilson Viana*

Mulheres, jovens, homens e crianças da comunidade quilombola de Volta Grande de Barro Alto vivenciaram um Domingo diferente. É que no último dia 15 de Outubro a comunidade visitou o quilombo de Lagoa dos Batatas de Ibititá numa programação surtida de informação, formação, religiosidade ecumênica e apresentações da cultura afro-descendente.

No roteiro de visitações os participantes conheceram uma área de produção em transição agroecológica, onde o agricultor Leandro Macário, faz usos da babosa e da fibra de sisal para controlar o ataque de pragas. A casa de farinha industrial, espaço marcante da culinária negra, gerida pela Associação quilombola dos Batatas, também foi visitada.

A religiosidade de matriz africana também fez parte do ciclo de visitas, com uma parada no Terreiro de Umbanda, onde aconteceu uma verdadeira aula sobre as religiões de matriz africana, respeito e tolerância religiosa.

O Programa Nacional de Habitação Rural (PNHR), que contemplou mais de vinte famílias quilombolas, pode ser conhecido pelos presentes, por meio de visita em uma das casas em construção. Com o objetivo de conhecer experiências que visam o fortalecimento  da autonomia financeira, a auto-estima feminina e potencializar o acesso das mulheres às políticas publicas de empoderamento, preservação dos direitos e garantia nos espaços de poderes locais, foi visitada a cozinha comunitária, onde um grupo de jovens processa produtos de panificação e de subprodutos da mandioca.

Nesta mesma perspectiva de geração de renda, os quilombolas de Volta Grande tiveram uma aula de como aproveitar a fibra da banana e a palha de milho para a confecção de peças artesanais,como porta-guardanapo, brinquedos, flores, porta-jóias, dentre outras artes, que são produzidas pela família da ativista negra, Valdicléia Silva, a qual orientou todas as visitas.

O almoço coletivo encerrou a parte da manhã e motivou a energia da tarde que deu início com um momento de avaliação do intercambio. Para a agricultora  Maria Lúcia Sodré, este foi um momento de grande aprendizado e espera poder acolher a comunidade dos Batatas em Volta Grande. “Este é um dia que vai ficar marcado na nossa história”, enfatizou Maria Lúcia. Os agradecimentos e o encerramento foram  selados com um momento celebrativo ecumênico, onde com a presença de membros da Igreja Batista, da Igreja Católica e do Terreiro de Umbanda Iansâ. As três lideranças  religiosas,cultuaram sua fé em forma de agradecimento ,envolvendo todos os presentes . As apresentações culturais, marcadas pelo canto, a dança, a religiosidade e o samba de mulheres, homens e crianças do terreiro de Umbanda embalaram o momento de confraternização ,que deu continuidade com o desfile das jovens e   crianças  quilombolas de Volta Grande e a dança afro dos Batatas.

O momento cultural, foi o ápice do encontro, onde a dança, o desfile, o batuque, o samba cativou o envolvimento e a mistura de negras e negros das duas comunidades ,num só ritmo,onde platéia e palco deixou de existir, dando lugar ao intercambio e a confraternização de uma só raça e de um só povo, valorizando as  suas diferenças. O evento reuniu em torno de 60 pessoas entre visitantes e moradores.

O intercambio faz parte de um projeto da Associação dos Remanescentes de Quilombolas de Volta Grande de Barro Alto  (AUNIAFRO), apoiado pelo Centro Ecumênico de Serviço (CESE), com vistas a atender o edital, que tem como objetivo ampliar a relevância, o reconhecimento e o impacto da atuação das organizações da sociedade civil no Brasil, projeto este requerido junto à União Européia ,pela  Associação Brasileira de Organizações Não Governamentais (ABONG) .

O projeto da AUNIAFRO,  foi um dos três projetos aprovados no estado da Bahia, dentro deste edital e tem como foco o trabalho de fortalecimento de um grupo de mulheres quilombolas beneficiadoras da cozinha comunitária e a gestão do movimento associativista quilombola no território de Irecê. Neste sentido esta previsto para acontecer ainda este mês, um seminário que reunirá mais de 20 associações quilombolas e comunitárias para discutir o Novo Marco Regulatório das Organizações (MROSC) e a organização em torno das lutas e ações realizadas em quilombos dos territórios de Irece e Chapada Diamantina.

*Jornalista pela Faculdade de Comunicação Multimeios/Uneb/Campus Juazeiro e Mestre em Cultura Negra