Irecê e Região

Pita Paiva, o artista que inspira liberdade, com sensibilidade poética

Cultura&Realidade - 04 de Fevereiro de 2019 (atualizado 04/Fev/2019 18h58)

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Pita Paiva, em um dos seus diversos cursos região a fora. Foto: Divulgação

Por João Gonçalves

Poderíamos chamar esta tela de "Chuvas das primeiras águas" - Foto: Divulgação

 

Falar de Pita Paiva não é simples, como falar de paz. É preciso vivê-la. Mas como, se as andanças nos distanciam? Esperar o melhor momento. Mas qual é o melhor momento?

Há algum tempo devemos uma matéria a este extraordinário artista. Mas não é aquele artista da mídia, do tilintar do vil metal. É uma personagem... Personagem? Não. Ele é real. É um sujeito social de extraordinária grandeza, um artista que materializa emoção em tudo que faz, e, em tudo que faz, deixa marca de uma intencionalidade subjetiva para além dos gabaritos e simetrias vistos nos traços, ou na sonoridade imaginária dos seus versos, ecoados pelo recital de tantos dos seus seguidores e fãs. Muitos oprimidos pela cultura de massa.

O garimpar de entrevistas nas comunidades para um livro de memórias, trazendo a linha do tempo de pessoas humildes, as mais antigas dos povoados, relembrando as passagens da nossa gente, as mudanças dos cenários da paisagem rural das comunidades e dos roçados, é comum a Pita. Seja no assentado dos tamboretes ou entre um cochilo e outro na rede armada nos arvoredos dos quintais, entre um pitar do “boró” de fumo artesanal ou do mercadindo, histórias emocionantes são contadas. E daí saiu uma das suas obras, um livro que resgata a linha do tempo das comunidades, sob o olhar de personagens que viveram cada ato, pra contar.

Na varanda da sua oficina de xilogravuras, fincada no pé da serra da Canabrava (Uibai), ele também puxa prosa. Ainda não fui lá, mas me contaram. Suas telas xilográficas trazem muito de tudo isso, especialmente das coisas do sertão, como as casas de farinha e engenhos de rapadura. Os carros de boi também fazem parte das obras, e, especialmente, a labuta de homens e mulheres marcados pela superação de desafios de um sertão contraditório, repleto de belezas, encantos e sofrimentos. Mas a felicidade é irradiante, afinal, qual sertanejo vive neste espaço mágico, sem lágrimas, calos e sorrisos abundantes, nas cantigas dos adjuntes?

Tudo isso ele retrata, na delicadeza do canivete afiado e destreza das habilidosas mãos no talhar da madeira, da produção em claro contraste (assim me disse o aluno e fã, Elsão).

Premiado pelo Ministério da Cultura em 2017, como um dos Mestres da Cultura Popular do Brasil, Pita Paiva usa o prêmio para fomento das atividades artísticas. Suas produções em xilogravuras, destacando aspectos da vida sertaneja e a sua doação em realizar cursos voluntariamente em diversos espaços, como escolas públicas e organizações comunitárias, o levaram à premiação, entre 1.034 inscritos de todo o Brasil.

Aclamado em diversas exposições Brasil a fora, o poeta, escritor, ator, produtor teatral, professor e artista plástico Pita Paiva diz que tudo o que quer, é que a sua arte seja libertadora. Que possa promover a partir dos traços e dos passos do passado, um futuro com pessoas capazes e livres da opressão.

Em um dos seus poemas, ele diz:

Um dia acordei inspirado,

quis fazer um poema que salvasse o mundo,

que mergulhasse fundo na razão e na alma humana.

Escreveria os versos que educariam as cabeças e os corações e trariam o riso constante a cada rosto cuidadoso e feliz.

Escrevi a primeira palavra e achei tão bela e tão completa, que o meu poema pronto ficou assim:

AMOR!

A primeira vez que vi este cara, foi na Praça Marinho de Carvalho, em uma noite de frio, encima de um reboque, dirigindo peças de Teatro do Oprimido. Virei fã. Peço ao leitor que não desconfigure esta matéria, pelo fato dessa confissão. Ao visitar Uibaí, vá lá na varanda do Pita, visite seu ateliê e tire a prova dos nove.

UM POUCO DA BIOGRAFIA - Pita Paiva é artista popular de Uibaí-BA, com formação em Pedagogia pela Universidade Federal da Bahia (UFBA), especialização em Língua Portuguesa e Literatura Brasileira e capacitação em Teatro do Oprimido, pelo Centro de Teatro do Oprimido do Rio de Janeiro, ocorrida em 2002 e desde então aplica oficinas de TO. Atuou e escreveu diversas peças teatrais e participou como ator do premiado filme “O Ouro de Muribeca”.

É escritor, tendo publicado quatro livros de poemas e contos e foi premiado em alguns festivais de poesia. Divide a parceria como letrista em diversas músicas. Faz parte de um grupo de arte popular Trupe Verso e Corda, que existe desde 2011. É Xilógrafo, já tendo feito algumas exposições e produzido em torno de duas centenas de matrizes de xilogravura. Foi contemplado por seis vezes em editais públicos do Governo Estadual e Federal, com projetos artísticos.

Com visitantes da sua varanda, sempre rola prosas e versos. Visita da Caravana Musical do Velho chico à Varanda da Xilogravura em 2017 (ateliê de Pita Paiva, Uibaí-BA)  - Foto: Divulgação