Feira Literária reúne estudantes, professores, artistas e comunidade em quatro dias de programação e consolida a cultura como instrumento de pertencimento, formação e participação social
A avaliação positiva da secretária municipal de Educação, professora Andreia Rodrigues, sobre a realização da Feira Literária de Irecê (FLIRECÊ) encontra respaldo na dimensão alcançada pelo evento durante as comemorações do centenário de emancipação política do município. Mais do que uma programação literária, a Feira se transformou em um grande encontro entre educação, cultura, arte, memória e comunidade.
Realizada de 30 de julho a 2 de agosto, pela Prefeitura de Irecê, por meio das Secretarias Municipais de Educação e de Cultura, em parceria com o Núcleo Territorial de Educação (NTE 01) e instituições parceiras, a FLIRECÊ ocupou ruas, praças, escolas e espaços culturais, mobilizando milhares de pessoas em torno de uma ideia comum: celebrar os 100 anos de Irecê também significa reconhecer, preservar e reinventar as histórias que formaram sua identidade.
A abertura da programação foi marcada pelo Cortejo Literário, que levou estudantes, professores, gestores, educadores, artistas e moradores às principais ruas da cidade. Poesia, música, performances e manifestações artísticas transformaram o espaço urbano em território de expressão cultural, aproximando a produção escolar da vida cotidiana da comunidade.
A iniciativa também evidenciou uma compreensão ampliada da educação. Ao sair dos limites tradicionais da sala de aula, a literatura encontrou a música, o teatro, a fotografia, a oralidade e as artes visuais, criando possibilidades para que crianças, jovens e adultos se reconhecessem como produtores de cultura — e não apenas como espectadores.
Literatura como encontro com a própria história
Na Praça Chico Mendes, a solenidade de abertura deu início a uma programação que reuniu lançamentos de livros, rodas de conversa, oficinas, teatro, contação de histórias e causos, mesas-redondas e apresentações culturais.
Entre os momentos de destaque esteve o pré-lançamento da coletânea comemorativa dos 100 anos de Irecê e do Livro de Memórias do Município, iniciativas que ajudam a registrar diferentes dimensões da trajetória local e a preservar referências para as futuras gerações.
Oito estações temáticas e estandes das redes municipal e estadual de ensino ampliaram esse espaço de encontro, permitindo que a produção educacional também ocupasse posição central na celebração do centenário.
Nesse sentido, a FLIRECÊ cumpriu uma função que ultrapassa a promoção da leitura. Ao estimular o contato com livros, autores, histórias e experiências, a Feira criou condições para que a comunidade revisitasse sua própria trajetória e compreendesse que a memória coletiva não pertence apenas aos arquivos: ela vive nas pessoas, nas narrativas, nas imagens, nas manifestações artísticas e nas experiências compartilhadas.
Quando os estudantes contam a história de Irecê
Um dos pontos altos da programação foi a cerimônia de premiação do concurso literário “Vozes do Centenário: 100 anos, muitas histórias”, que envolveu estudantes e a comunidade escolar.
As produções foram avaliadas pelo Colegiado de Letras da UNEB e revelaram diferentes maneiras de olhar para Irecê, sua história, sua memória e sua identidade.
O concurso colocou os estudantes diante de uma oportunidade particularmente significativa: escrever sobre o lugar onde vivem. Ao fazer isso, deixaram de ocupar apenas o papel de leitores e passaram a atuar como autores, intérpretes e guardiões de memórias.
É nesse movimento que a arte assume uma dimensão de empoderamento comunitário. Quando uma criança ou um jovem escreve, fotografa, interpreta, canta ou representa sua comunidade, ele também afirma que sua experiência possui valor e merece ser registrada.
Ancestralidade, diversidade e representatividade
A valorização da diversidade também esteve presente na Exposição Ayô – Edição II, organizada pelo Ponto de Cultura Anísio Teixeira.
A mostra reuniu 30 fotografias protagonizadas por estudantes da Rede Municipal de Educação e trouxe para o centro da programação temas relacionados à ancestralidade afro-brasileira, à diversidade cultural e à representatividade.
Mais do que expor imagens, a iniciativa amplia a possibilidade de reconhecimento. A arte visual torna-se, nesse contexto, instrumento para revelar sujeitos, histórias e referências que muitas vezes permaneceram invisibilizados nas narrativas tradicionais.
A presença dos estudantes como protagonistas reforça ainda uma dimensão importante da política cultural: oferecer espaços para que diferentes gerações possam se enxergar e se reconhecer naquilo que é produzido artisticamente.
Irecê vista por diferentes olhares
A fotografia também ocupou espaço de destaque com a realização da premiação do 8º Concurso de Fotografia “Centenário em Foco: História e Identidade”.
As fotografias finalistas, expostas durante a Feira, apresentaram diferentes perspectivas sobre a história e o patrimônio cultural do município.
A escolha da fotografia como linguagem para registrar o centenário acrescenta outra camada à construção da memória. Se a literatura permite narrar, a fotografia permite observar. Cada imagem seleciona um instante, um rosto, uma paisagem, uma construção, uma manifestação ou uma cena cotidiana — e, ao fazê-lo, ajuda a definir aquilo que uma comunidade deseja preservar como lembrança.
Arte que aproxima gerações
Ao reunir literatura, fotografia, música, teatro, contação de histórias, performances e manifestações culturais, a FLIRECÊ demonstrou que a política cultural pode cumprir uma função que vai muito além do entretenimento.
A arte cria pontes.
Aproxima a criança do avô. O estudante do professor. O artista da comunidade. A memória do presente. A escola da cidade. O passado das novas gerações.
Em uma celebração de 100 anos, essa conexão assume significado ainda maior. O centenário não é apenas uma marca cronológica. É uma oportunidade para perguntar que cidade foi construída, quais histórias foram preservadas, quais foram esquecidas e que identidade as novas gerações desejam levar adiante.
Foi justamente nesse território que a FLIRECÊ se estabeleceu.
Um novo lugar para a cultura


































O encerramento da programação coincidiu com a celebração dos 100 anos de emancipação política de Irecê e levou novamente milhares de pessoas à Praça Chico Mendes.
Artistas locais dividiram o palco com Toni Garrido e Nando Reis, encerrando oficialmente as comemorações do centenário.
A participação popular ao longo dos quatro dias consolidou a Feira como um dos principais acontecimentos culturais e educacionais do município e revelou a capacidade de mobilização da cultura quando ela consegue dialogar com a comunidade.
Os resultados ultrapassam, portanto, os números de participantes ou a quantidade de atividades realizadas. A FLIRECÊ fortaleceu políticas públicas de incentivo à leitura, à escrita e à produção cultural; aproximou as redes municipal e estadual de ensino; ampliou a participação de estudantes, professores, artistas e moradores; e criou espaços para o protagonismo juvenil e estudantil.
Mas talvez seu principal legado esteja em outro lugar: na construção de pertencimento.
Ao celebrar a história de Irecê por meio das palavras, das imagens, da música, do teatro e das manifestações populares, a Feira ajudou a transformar o centenário em uma experiência vivida coletivamente.
E quando uma cidade consegue contar sua própria história por meio de seus estudantes, seus artistas, seus educadores e sua gente, a cultura deixa de ser apenas programação. Torna-se patrimônio vivo.
A FLIRECÊ encerrou sua edição do centenário, mas deixa aberta uma perspectiva para os próximos anos: fazer da literatura e das artes não apenas instrumentos de celebração, mas políticas permanentes de formação, expressão, identidade e participação cidadã.






