– Aos 12 anos, Gabriel Silva supera dificuldades, chega ao pódio nacional e transforma o tênis de mesa em símbolo de oportunidade para jovens de Irecê –
Da Redação | Cultura&Realidade
O sonho começou em Irecê, ganhou forma sobre uma mesa de tênis de mesa e, neste domingo, 6 de setembro, chegou ao pódio de uma das principais competições da modalidade no país. Aos 12 anos, o jovem Gabriel Silva, morador do bairro São Francisco, em Irecê, conquistou o 3º lugar no Rating E da Copa Brasil Ouro de Tênis de Mesa, realizada em Fortaleza (CE).
Mais do que uma medalha de bronze, o resultado representa a passagem de uma promessa local para um cenário de competição nacional. Gabriel enfrentou uma disputa de alto nível, com mais de 56 atletas inscritos na categoria, e voltou para casa levando consigo uma conquista que começou muito antes da viagem ao Ceará: nasceu nos treinos, na persistência e na oportunidade de praticar esporte.
A Copa Brasil Ouro de Fortaleza, promovida no calendário da Confederação Brasileira de Tênis de Mesa (CBTM), reuniu 1.407 inscrições em sua edição de 2026, segundo a própria entidade. Foram quatro dias de competição, com atletas de diferentes estados brasileiros e categorias que vão das crianças do Sub-9 aos veteranos. É nesse universo que a história de Gabriel ganha dimensão.
O esporte como caminho
O jovem atleta é aluno do professor Joaquim Dourado, o Kinzão, e integra um projeto social de tênis de mesa desenvolvido em Irecê com apoio do poder público municipal. A iniciativa não surgiu agora.
O trabalho de Kinzão com a modalidade já era reconhecido nacionalmente há alguns anos. Em 2021, ao noticiar uma etapa do Campeonato Baiano realizada em Feira de Santana, a Confederação Brasileira de Tênis de Mesa destacou os atletas de Irecê e classificou como “bonito Projeto Social” a iniciativa capitaneada por Joaquim Dourado, registrando a conquista de duas medalhas pelos representantes da cidade.
Ou seja: o pódio de Gabriel é fruto de uma história que vem sendo construída há mais de uma década. Antes de chegar ao resultado nacional, houve treinamento, viagens, competições, derrotas, aprendizado e, sobretudo, a persistência de manter uma modalidade olímpica viva em uma cidade do interior baiano.
Uma medalha que representa muitos
Em modalidades esportivas de alto rendimento, chegar a uma competição nacional exige muito mais do que talento. É preciso equipamento, treinamento, orientação técnica, deslocamento, inscrição, alimentação, hospedagem e, principalmente, continuidade.
Para jovens que começam longe dos grandes centros esportivos, cada uma dessas etapas pode se transformar em obstáculo. Por isso, o bronze conquistado por Gabriel tem um significado que ultrapassa a classificação final.
É a demonstração concreta de que, quando uma oportunidade aparece e encontra um ambiente capaz de sustentá-la, o talento pode florescer onde muitas vezes ninguém estava olhando.
Gabriel saiu do bairro São Francisco e chegou a Fortaleza para disputar contra atletas de diferentes partes do Brasil. Voltou com uma medalha. E com uma mensagem poderosa para outros meninos e meninas de Irecê: o lugar onde se nasce não precisa determinar até onde se pode chegar.
Uma construção coletiva
O resultado também recoloca no centro da discussão o papel dos projetos sociais esportivos. Segundo o relato da equipe técnica, a trajetória do tênis de mesa em Irecê contou com a contribuição de diferentes pessoas e instituições ao longo dos anos, entre elas a família Rizerio, Chico e Lucas, apontados como importantes na implantação e fortalecimento da modalidade na cidade.
A caminhada também envolve a Prefeitura de Irecê, profissionais, apoiadores, dirigentes e instituições ligadas ao tênis de mesa baiano. Entre os nomes lembrados estão Nicanor de Feira, professora Eloísa Mendes, Dr. James Cruz, KTT, Paulo Carneiro, do Clube dos Tenistas da Bahia (CTB), além da Federação Baiana de Tênis de Mesa e parceiros de Salvador, Feira de Santana e Camaçari.
A própria história recente mostra que essa rede de colaboração pode produzir resultados. Em 2025, Joaquim Dourado Junior foi nomeado oficialmente pelo município para o cargo de Monitor de Esporte da Secretaria de Esporte e Lazer de Irecê.
O sonho apenas começou
Gabriel tem apenas 12 anos. Ainda há muito chão pela frente, muitas mesas, torneios, derrotas e vitórias. Mas o primeiro grande sinal já está dado. Um garoto do São Francisco, treinado em Irecê, viajou para uma competição nacional e voltou para casa entre os três melhores de sua categoria. A medalha de bronze não encerra uma história. Abre uma nova etapa.
Porque, às vezes, o que parece apenas uma conquista esportiva é também uma pequena revolução social. Uma criança encontra uma mesa. Alguém oferece uma raquete. Um professor acredita. A família apoia. O poder público ajuda a criar condições. E o menino descobre que pode competir. Depois, descobre que pode vencer. Neste domingo, Gabriel Silva descobriu algo ainda maior: um sonho que nasceu em Irecê pode, sim, chegar ao pódio do Brasil.








BOX | KINZÃO:
Uma vida dedicada a fazer o Tênis de Mesa acontecer
Joaquim Dourado Junior, conhecido no meio esportivo como Kinzão, é um dos personagens centrais da história do tênis de mesa em Irecê. Seu trabalho com a modalidade antecede em muitos anos o atual momento vivido por Gabriel Silva.

Em 2013, registros publicados sobre o tênis de mesa de Irecê já mostram Kinzão entre os protagonistas das competições baianas, incluindo a conquista do vice-campeonato estadual daquele ano.
Em 2021, a própria Confederação Brasileira de Tênis de Mesa registrou oficialmente o trabalho de Joaquim Dourado à frente de um projeto social em Irecê, destacando a participação dos atletas da cidade no Campeonato Baiano.
A trajetória também ganhou dimensão institucional. Em janeiro de 2025, a Prefeitura de Irecê publicou decreto nomeando Joaquim Dourado Junior como Monitor de Esporte da Secretaria Municipal de Esporte e Lazer.
Kinzão representa, assim, uma figura que costuma ficar longe dos holofotes quando a medalha aparece: o professor que permanece quando o torneio termina, acompanha o treino quando não há plateia e ajuda a transformar potencial em possibilidade.
A medalha de Gabriel, portanto, também conta um pouco da história de Kinzão. Há uma semente plantada há anos. Gabriel é um dos frutos que começam a aparecer.





