Da primeira câmera comprada com uma carta de consórcio aos milhares de álbuns produzidos, sua trajetória reúne empreendedorismo, afetos e memória regional
Da Redação I Cultura&Realidade
Antes de construir uma carreira na fotografia, ‘Cléia Foto’, nome pelo qual ficou conhecida Cléia Pereira da Silva ou Cleia Franco, alimentava um sonho de infância. Gostava de olhar os álbuns feitos por um tio fotógrafo e imaginava trabalhar com imagens. Anos depois, enquanto administrava com o marido, Emílio Franco, um pequeno posto de medicamentos no povoado de Angical, decidiu transformar aquele interesse em profissão. Comprou a primeira câmera com uma carta de crédito de consórcio e começou a fotografar eventos em Irecê.
O trabalho cresceu. Cléia montou um estúdio em um espaço alugado; Emílio passou a colaborar na edição das imagens e na cobertura dos eventos. O casal investiu em equipamentos, formação e ampliação da equipe. Em reportagem produzida pelo Sebrae em 2013, ela relatava atender mais de 20 grandes eventos por mês. Naquele momento, a empresa informava já ter entregue mais de 6 mil álbuns de formatura — número histórico, que não deve ser confundido com um balanço atualizado.
A trajetória empresarial, porém, conta apenas uma parte dessa história. Cada formatura fotografada por Cléia registra estudantes, professores, famílias e uma etapa da educação regional. As imagens de casamentos e celebrações preservam vínculos familiares; os registros de eventos públicos ajudam a reconhecer pessoas e acontecimentos que marcaram a vida de Irecê. Seu trabalho também aparece creditado em cobertura de uma solenidade da Defensoria Pública na cidade.
É nesse conjunto de imagens que está sua importância social e cultural. Para quem foi fotografado, uma imagem pode trazer de volta a presença de alguém, uma conquista ou um encontro. Para as próximas gerações, pode revelar como seus familiares viviam, se vestiam e celebravam. Reunidos e identificados, esses registros também podem ajudar pesquisadores a compreender as mudanças da cidade e de sua região.
Há, portanto, uma dimensão histórica e memorial no ofício de Cléia Franco: ao registrar acontecimentos que pareciam pertencer apenas à vida de cada família, ela contribuiu para preservar fragmentos da história coletiva. Esse legado ganha ainda mais força quando fotografias e vídeos são guardados com datas, nomes, locais e autorização para seu uso futuro.
A menina que admirava os álbuns do tio construiu, com sua câmera, uma forma de trabalho que permite a muitas famílias reencontrar o próprio passado. Em Irecê, as imagens de Cléia Franco ajudam a contar uma história feita de rostos, conquistas e gerações.





