Fila formada ainda de madrugada em Moreno, na província de Buenos Aires, reúne jovens e trabalhadores mais velhos; desemprego registrado pelo INDEC é de 7,9% e a fome bate no seio das famílias, em desespero
DA REDAÇÃO | CULTURA&REALIDADE
Currículos nas mãos, horas de espera e a esperança de voltar a trabalhar. Centenas de argentinos formaram uma longa fila para disputar apenas 30 vagas em uma loja de tecnologia e artigos para casa, em Moreno, na província de Buenos Aires. Segundo publicação do portal Metrópoles, a cena foi registrada nesta segunda-feira, 12 de outubro, com candidatos chegando ainda de madrugada.
A seleção reuniu pessoas de diferentes idades e trajetórias: jovens tentando conquistar o primeiro emprego e trabalhadores mais velhos buscando retornar ao mercado. A concentração de candidatos diante de uma oferta limitada de vagas retrata a dificuldade enfrentada por quem precisa garantir renda para sustentar a família.
Entre os entrevistados citados pelo Metrópoles está Ezequiel, que chegou às 5h. Desempregado há dois meses, ele relatou tentativas de conseguir trabalho sem receber respostas e manifestou críticas à gestão do presidente Javier Milei.
Mariana também descreveu obstáculos para encontrar uma ocupação e afirmou que os rendimentos não acompanham o aumento das despesas. Outro candidato, Elian, demonstrou preocupação com a economia argentina e criticou as políticas do governo. Os relatos expressam a percepção dos entrevistados sobre as dificuldades que enfrentam.

Desemprego e informalidade
A situação ocorre em um mercado de trabalho marcado por desemprego e elevada informalidade. Segundo o Instituto Nacional de Estatística e Censos da Argentina (INDEC), a taxa de desocupação ficou em 7,9% no segundo trimestre de 2026, nos 31 aglomerados urbanos abrangidos pela Pesquisa Permanente de Domicílios. Nesse universo pesquisado, aproximadamente 1,2 milhão de pessoas estavam sem ocupação, disponíveis para trabalhar e procurando emprego.
O levantamento também registrou 45% de informalidade entre os ocupados, com aumento estatisticamente significativo de um ponto percentual em relação ao mesmo trimestre de 2025. Isso mostra que o desafio envolve tanto conseguir trabalho quanto ter acesso a uma ocupação formal.
O INDEC ressalta, contudo, que as taxas gerais de emprego e desemprego não apresentaram variações estatisticamente significativas nas comparações com o trimestre anterior e com o segundo trimestre de 2025. Essa ressalva impede tratar o indicador, isoladamente, como evidência de uma disparada recente do desemprego.
Na fila de Moreno, as estatísticas ganham rosto. Para quem chegou antes do amanhecer, uma das 30 vagas representa a possibilidade de recuperar renda e alguma segurança para planejar os próximos meses.
Na Argentina de Milei, a fome bate no centro da maioria das famílias
Não é só a busca pelo emprego. A dificuldade para garantir alimentação suficiente também marcou os últimos dois anos na Argentina. Em agosto de 2024, o UNICEF alertou que um milhão de crianças e adolescentes iam dormir sem jantar, enquanto 1,5 milhão deixavam de fazer alguma refeição por falta de dinheiro. Entre os adultos dos lares com crianças, 4,5 milhões pulavam refeições, muitas vezes para priorizar a alimentação dos filhos. O quadro revela uma fome já presente no cotidiano de famílias cujos rendimentos não cobriam necessidades básicas.
Embora os indicadores tenham apresentado melhora posteriormente, a vulnerabilidade permanece elevada. Segundo relatório do UNICEF divulgado em junho de 2026, com dados do segundo semestre de 2025, 42,3% das crianças e adolescentes viviam em lares pobres, ante 52,7% um ano antes. Cerca de 1,1 milhão estavam em famílias abaixo da linha de indigência, com renda insuficiente para cobrir a cesta alimentar básica. A redução da pobreza, portanto, não eliminou a ameaça da fome, especialmente nos lares atingidos pelo desemprego e pelo trabalho precário.
Com informações da publicação do Metrópoles e do INDEC.






