Praga já foi identificada em quatro municípios do Território de Irecê e pode comprometer uma das principais fontes de alimentação dos rebanhos no semiárido
Da Redação | Cultura&Realidade
Uma praga capaz de destruir palmais e comprometer uma das principais fontes de alimentação dos rebanhos no semiárido começa a exigir atenção redobrada de produtores rurais da região de Irecê.
A cochonilha-do-carmim (Dactylopius opuntiae) já está presente em Jussara, São Gabriel, João Dourado e América Dourada, segundo informações apresentadas por técnicos da Agência Estadual de Defesa Agropecuária da Bahia (ADAB).
O alerta ganhou força nesta sexta-feira, após uma visita dos engenheiros agrônomos Ricardo Gadelha Vilela, gerente técnico Vegetal da ADAB, e João José de Oliveira Neto, fiscal estadual agropecuário e responsável pelo programa de prevenção e controle da cochonilha do carmim no Território de Irecê, a uma área afetada no município de América Dourada. Os dois foram ao local para verificar a dimensão da ocorrência e orientar produtores e criadores sobre as intervenções necessárias.
De acordo com o material técnico apresentado pela ADAB, a Bahia desenvolve ações de prevenção e controle da cochonilha-do-carmim desde 2012. O primeiro registro da praga no Estado ocorreu em 2017, no município de Glória, com posterior expansão para Botuporã e municípios do Território de Jacobina. Em dezembro de 2024, um novo foco foi identificado em Jussara e São Gabriel, chegando posteriormente aos quatro municípios atualmente registrados no Território de Irecê.
Uma ameaça à reserva forrageira do semiárido
A palma forrageira ocupa papel estratégico na pecuária regional. Adaptada às condições de seca, a planta funciona como importante fonte de alimento para os rebanhos, sobretudo nos períodos em que a disponibilidade de outras forragens diminui.
É justamente essa função que torna a cochonilha-do-carmim uma ameaça de grande relevância econômica.
O inseto forma colônias esbranquiçadas sobre as raquetes e se alimenta da seiva da planta. Durante o processo, injeta substâncias tóxicas que provocam amarelecimento, enfraquecimento, necrose, secamento e, em ataques severos, a morte das raquetes e da própria planta.
Segundo as informações da ADAB, trata-se de uma praga altamente danosa, com potencial para provocar perdas de produção de até 100%. Sua disseminação pode ocorrer pelo vento, por animais, veículos, mudas e partes vivas da palma, como raquetes e cladódios.
Por isso, o problema não está restrito à propriedade onde o foco foi identificado. O trânsito de material vegetal contaminado pode favorecer a expansão da praga para outros palmais.
Apesar dos problemas de ordem ambiental e econômicos, de acordo com Ricardo Gadelha as raquetes podem ser ofertadas normalmente aos animais, “sem risco”. E complementa: “a praga afeta a vida útil do palmal, prejudicando os investimentos e a reserva estratégica de alimento para os rebanhos”.

O que já aconteceu em outras regiões







A dimensão do risco pode ser compreendida a partir da experiência de outras regiões produtoras.
Um artigo científico publicado em abril de 2026 na revista Scientific Reports, de autoria de Mohamed El Aalaoui e colaboradores, registra que a cochonilha-do-carmim infestou aproximadamente 100 mil hectares de palma forrageira no Brasil, utilizada principalmente para alimentação animal, provocando redução de cerca de 80% na produtividade e perdas econômicas estimadas em US$ 100 milhões. Os autores apresentam esses números com base na literatura científica anteriormente publicada sobre a ocorrência brasileira.
Outra publicação científica, de 2022, também registra a dimensão histórica do problema no Brasil, apontando a perda de aproximadamente 100 mil hectares de palma em consequência da praga. O mesmo estudo observa que infestações severas podem levar à morte das plantas.
Os números ajudam a dimensionar o que está em jogo para a região de Irecê. A ocorrência atualmente registrada não significa que o território esteja diante de uma infestação generalizada. Ao contrário, o material da própria ADAB ressalta que, embora presente, a praga ainda não está amplamente disseminada no território baiano.
É justamente essa condição que torna o momento estratégico para ampliar a vigilância e agir rapidamente sobre os focos existentes.
Prevenção pode evitar prejuízos maiores
A identificação precoce é uma das principais ferramentas de defesa.
O produtor deve observar regularmente os palmais e procurar a presença das características colônias brancas sobre as raquetes. Diante de qualquer suspeita, a recomendação é buscar orientação técnica e evitar o transporte ou distribuição de raquetes, mudas ou outros materiais vegetais provenientes da área suspeita.
A Bahia possui histórico de medidas de defesa contra a praga. Em 2007, por exemplo, a ADAB publicou portaria proibindo a entrada, o trânsito e o comércio, no Estado, de plantas e partes de plantas de palma e outras cactáceas provenientes de áreas onde havia ocorrência oficial da cochonilha-do-carmim. A medida fazia parte do Projeto de Prevenção à Cochonilha do Carmim.
A experiência demonstra, portanto, que o controle do trânsito de material vegetal é uma das ferramentas importantes para reduzir a disseminação.
E quando a praga já está presente?
Quando o foco é identificado, a orientação técnica deve ser imediata.
Dependendo da situação encontrada, podem ser necessárias medidas de retirada e eliminação adequada das partes infestadas, restrição do trânsito de material vegetal e adoção de métodos de controle recomendados pelos órgãos de defesa agropecuária.
Existem produtos fitossanitários registrados para o controle da cochonilha na palma forrageira. Entretanto, a aplicação deve seguir orientação técnica, respeitando o produto registrado, a dose, a forma e o momento adequados de utilização.
Além do controle direto, a estratégia de longo prazo passa pela escolha de materiais mais resistentes.
Variedades resistentes são uma das principais estratégias
O material técnico da ADAB aponta a utilização de variedades resistentes como o método mais eficaz para reduzir a vulnerabilidade dos palmais.
Entre as variedades indicadas estão: Palma Miúda (Doce); Palma Baiana (Mão-de-Moça); Orelha-de-Elefante Mexicana; Orelha-de-Elefante Africana e a Palma Califórnia.
A pesquisa científica também vem trabalhando com variedades resistentes e alternativas de manejo, incluindo controle biológico. Estudos desenvolvidos no Nordeste brasileiro apontam a resistência genética como uma das estratégias importantes para reduzir os danos provocados pela cochonilha.
Isso não significa, entretanto, que as variedades resistentes eliminem a necessidade de vigilância. O manejo deve ser integrado e permanente.
Um problema que ultrapassa a palma
O impacto econômico da cochonilha não se resume ao valor da planta destruída.
Quando o palmal é comprometido, o produtor perde uma fonte de alimento que pode ser decisiva para a manutenção do rebanho durante a estiagem. A consequência pode ser a necessidade de comprar outras fontes de alimentação, aumentando os custos de produção justamente em períodos de maior vulnerabilidade.
Em outras regiões brasileiras, estudos já associaram a infestação ao abandono ou redução de áreas cultivadas com palma e à necessidade de reorganização dos sistemas de alimentação animal.
É por isso que a preocupação dos técnicos da ADAB na região de Irecê ultrapassa a dimensão fitossanitária. Trata-se também de proteger uma importante base da produção pecuária regional.
O momento é de vigilância e ação
A presença da cochonilha-do-carmim em quatro municípios do Território de Irecê exige atenção dos produtores, mas também recomenda cautela para que o alerta não se transforme em alarmismo.
O cenário atual é de uma praga presente e com potencial de expansão, mas que, segundo a ADAB, ainda não se encontra amplamente disseminada na Bahia. Isso significa que existe uma janela importante para agir.
Monitorar os palmais, identificar rapidamente os focos, evitar o trânsito de material contaminado, buscar orientação técnica e ampliar o uso de variedades resistentes são medidas que podem contribuir para impedir que ocorrências localizadas assumam proporções maiores.
Para uma região sujeita a períodos prolongados de estiagem, proteger a palma significa também proteger o alimento do rebanho, reduzir riscos à produção e preservar a capacidade de permanência das famílias no campo.
No caso da cochonilha-do-carmim, a experiência de outras regiões deixa uma lição objetiva: quanto mais cedo o problema for identificado e enfrentado, maiores são as possibilidades de evitar que uma ocorrência fitossanitária se transforme em um problema econômico e social.





