Análises da Folha e de colunistas de O Globo favorecem o presidente, com ressalvas; confronto ganha dimensão histórica após petista anunciar despedida das disputas eleitorais
DA REDAÇÃO | CULTURA&REALIDADE
O último debate presidencial de 2026 colocou diante das câmeras mais que dois candidatos às vésperas da votação. Ao enfrentar Flávio Bolsonaro (PL), na noite desta sexta-feira, 23, na TV Globo, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) encerrou a sequência de debates daquela que ele próprio anunciou como sua última campanha eleitoral. Na repercussão consultada, análises da Folha de S.Paulo e de colunistas de O Globo apontaram vantagem para o petista, embora com críticas ao desempenho dos dois adversários.
Na Folha, o jornalista Igor Gielow avaliou que Lula venceu por pontos um confronto mais organizado que o anterior. Segundo sua análise, o presidente conseguiu colocar Flávio na defensiva em diferentes momentos, inclusive na segurança pública. O colunista também identificou dificuldades do petista ao responder sobre contas públicas e ressaltou que o efeito do encontro sobre eleitores indecisos permanecia incerto.
Em outra avaliação publicada pelo jornal, o cientista político Antonio Lavareda considerou a vantagem de Lula clara, mas sem domínio absoluto. Para ele, o presidente melhorou durante o programa ao relacionar sua experiência pessoal às políticas sociais. Flávio, por sua vez, encontrou seus melhores momentos ao abordar alimentos, dívidas das famílias e juros, mas perdeu força com provocações e propostas pouco detalhadas.
Entre os colunistas de O Globo, conforme levantamento repercutido pela CBN Vale, Lula recebeu média 2,7, contra 2,4 de Flávio, em escala de um a cinco. Houve divergências: Vera Magalhães favoreceu Lula; Thomas Traumann deu vantagem a Flávio; Bernardo Mello Franco e Pablo Ortellado atribuíram notas iguais aos dois. A média favorável ao presidente, portanto, não representou unanimidade.
As avaliações reconheceram maior desenvoltura televisiva de Flávio e dificuldades de Lula para administrar o tempo. Ao mesmo tempo, apontaram que os ataques pessoais prejudicaram o senador. Um dos episódios centrais ocorreu quando Flávio usou a expressão “nove dedos” e Lula respondeu relacionando a perda do dedo em acidente de trabalho à sua trajetória de operário. O adversário posteriormente pediu desculpas.

LULA sendo carregado nos braços dos operários do ABC Paulista, no início da sua luta sindical – Foto: Biografia/\Lula
A biografia entrou, assim, no centro do confronto. O acidente que marcou o corpo do trabalhador voltou ao debate nacional quando aquele mesmo trabalhador, décadas depois, defendia sua permanência na Presidência. Na avaliação de Lavareda, a capacidade de aproximar experiência pessoal e proteção social esteve entre os pontos fortes do petista naquela noite.
Outro momento de tensão envolveu a morte de Ana Clara, de cinco anos, e a atuação de Flávio na defesa de um policial acusado no caso. A mãe da menina acompanhava o debate. Para os analistas consultados pela Folha, o questionamento de Lula colocou o senador em posição defensiva e esteve entre os episódios mais relevantes do encontro.
O significado histórico dessa participação encontra respaldo em uma declaração feita pelo próprio Lula na segunda-feira, 19, em Porto Alegre: “Essa é a minha última disputa eleitoral”. O anúncio permite compreender o debate como uma possível despedida desse palco, sem confundir o encerramento das candidaturas com uma retirada da vida política.
Nascido em Pernambuco, em 1945, Lula migrou ainda criança para São Paulo, tornou-se metalúrgico e ganhou projeção na liderança sindical do ABC. Participou das mobilizações contra a ditadura, da fundação do PT e da Assembleia Constituinte. Sua primeira candidatura presidencial ocorreu em 1989, na eleição que devolveu aos brasileiros a escolha direta do presidente após o regime militar.
Entre aquela estreia e o confronto desta sexta-feira transcorreram 37 anos. A trajetória do candidato atravessa a reconstrução democrática e a chegada de um representante da classe trabalhadora ao comando do país. Essa dimensão ajuda a explicar por que seu último debate de campanha pode ser lido também como o fechamento de um capítulo da história política brasileira.
As avaliações favoráveis não autorizam antecipar o resultado das urnas. Lavareda advertiu que o debate, isoladamente, não permite afirmar uma virada eleitoral. O que a noite deixou foi uma disputa ainda aberta e uma imagem de forte significado histórico: às vésperas da decisão popular, Lula voltou a recorrer à própria vida para defender o projeto político que pretende continuar conduzindo.






