O verdadeiro problema é a ausência de políticas permanentes de controle populacional, a negligência de parte dos tutores e a falta de conscientização coletiva.
Editoral I Cultura&Realidade, por João Gonçalves
Há temas que desafiam qualquer simplificação. A presença crescente de cães em situação de rua em Irecê e em dezenas de municípios baianos é um deles. O problema não pode ser tratado apenas como uma pauta de proteção animal, tampouco apenas como uma questão de segurança pública ou de prejuízo econômico. Trata-se de um desafio complexo, que exige responsabilidade, conhecimento técnico e compromisso coletivo.
É cada vez mais comum encontrar cães circulando em avenidas, feiras livres, praças, escolas, hospitais, rodovias e comunidades rurais. Muitos são animais abandonados; outros possuem tutores, mas vivem soltos, reproduzem-se sem controle e formam matilhas que passam a disputar alimento e território. O resultado é um cenário preocupante para toda a sociedade.






Do ponto de vista da saúde pública, a preocupação é legítima. Embora a Bahia mantenha o controle da raiva urbana graças às campanhas de vacinação, cães errantes continuam representando risco para transmissão de diversas zoonoses e agravos, como leptospirose, leishmaniose visceral (em áreas endêmicas), escabiose, dermatofitoses, parasitoses intestinais e infecções decorrentes de mordidas, além da possibilidade de acidentes de trânsito provocados pela presença de animais em vias públicas. Também merecem atenção doenças oportunistas transmitidas por pulgas e carrapatos, que encontram nesses animais um importante reservatório.
Nos últimos anos, secretarias municipais de saúde e o Governo da Bahia intensificaram campanhas de vacinação antirrábica, ações educativas e programas de vigilância das zoonoses. Essas iniciativas têm um objetivo claro: proteger a população humana e animal, monitorar doenças e evitar que problemas controláveis se transformem em crises sanitárias. Entretanto, vacinação isoladamente não resolve o crescimento desordenado da população canina.
Existe ainda uma realidade menos visível nas cidades, mas devastadora para centenas de famílias do campo.
Em diversas regiões da Bahia, pequenos criadores de caprinos, ovinos e aves convivem com ataques frequentes de cães. Não são raros os relatos de produtores que perderam dezenas de ovelhas, cabras ou carneiros ao longo de poucos meses. Em outros casos, um único ataque durante a madrugada foi suficiente para matar mais de duzentas aves.
O prejuízo ultrapassa o valor financeiro
Cada animal abatido representa meses ou anos de investimento, alimentação, manejo, melhoramento genético e expectativa de renda. Para muitas famílias, significa a perda da reserva financeira destinada ao custeio da safra, ao pagamento de estudos dos filhos ou simplesmente à manutenção da propriedade. Em inúmeros casos, o desânimo leva o produtor a abandonar completamente a criação, reduzindo sua renda e enfraquecendo uma atividade essencial para a economia regional.
É importante compreender que, na maioria das situações, esses ataques não são praticados por cães silvestres, mas por animais domésticos abandonados ou criados sem qualquer controle pelos próprios tutores.
Quando formam matilhas, passam a desenvolver comportamento predatório, atacando rebanhos muito maiores do que aqueles necessários para sua alimentação.
Por isso, a solução também não pode ser baseada na busca por culpados ou em medidas extremas. O caminho mais eficiente passa pela ciência, pela legislação, pela consciência cidadã e pela gestão pública.
Diversos municípios brasileiros e experiências internacionais demonstram que programas permanentes de esterilização (castração), identificação eletrônica por microchip, cadastro obrigatório dos animais, campanhas contínuas de adoção responsável, educação da população e fiscalização do abandono apresentam resultados consistentes na redução da população de cães errantes.
Também se mostram eficazes a criação de centros municipais de manejo populacional, mutirões periódicos de castração, convênios com clínicas veterinárias, bancos públicos de dados dos animais identificados e políticas de responsabilização dos tutores que permitem que seus cães circulem livremente ou pratiquem abandono.
No meio rural, medidas preventivas também têm apresentado bons resultados. O uso de cercas adequadas, reforço da proteção dos galinheiros e currais durante a noite, iluminação estratégica, monitoramento por câmeras e a utilização de cães de guarda treinados para proteção de rebanhos podem reduzir significativamente os ataques, especialmente quando associados ao controle populacional dos cães errantes.
Entretanto, nenhuma dessas ações produzirá resultados duradouros se a sociedade continuar abandonando animais nas ruas e nas estradas. O abandono não é apenas um ato de crueldade; é também um problema de saúde pública, de segurança coletiva e de impacto econômico.
É preciso romper com a falsa ideia de que proteger os animais significa aceitar o crescimento descontrolado de cães nas cidades e no campo. Da mesma forma, proteger os produtores rurais não pode significar desconsiderar o bem-estar animal.
As duas causas caminham juntas
Um programa moderno de manejo populacional protege os cães, protege as pessoas, protege o patrimônio dos agricultores e fortalece a saúde pública.
Irecê e tantos outros municípios baianos têm a oportunidade de transformar esse desafio em exemplo de gestão responsável. Isso exige planejamento técnico, investimento contínuo, integração entre as secretarias de Saúde, Agricultura, Meio Ambiente e Educação, participação do Ministério Público, atuação dos Conselhos de Medicina Veterinária, apoio das universidades e, principalmente, o compromisso de cada
cidadão com a guarda responsável dos seus animais.
Os cães não são os inimigos desta história
O verdadeiro problema é a ausência de políticas permanentes de controle populacional, a negligência de parte dos tutores e a falta de conscientização coletiva.
Enquanto essa realidade não for enfrentada de maneira técnica, humanitária e integrada, continuarão aumentando os riscos à saúde, os acidentes, o sofrimento dos próprios animais e os prejuízos daqueles que vivem do trabalho no campo.
Refletir sobre esse tema é um dever de todos. Enfrentá-lo, com equilíbrio, conhecimento e responsabilidade, é uma necessidade que não pode mais ser adiada.





