– Alianças, investimentos e reorganização das lideranças transformam o município em uma das disputas mais estratégicas do Território de Irecê, onde Cafu Barreto perdeu terreno para Fabíola Mansur, Jacó e Ricardo Rodrigues –
Da Redação I Cultura&Realidade
Por muito tempo, a política de Ibititá foi compreendida a partir da disputa entre grupos tradicionais que se alternavam no comando do município. Para as eleições de 2026, porém, esse cenário ganhou novos contornos. A cidade passou a ser destaque no debate político regional, onde alianças, investimentos públicos, programas sociais e articulações institucionais se entrelaçam na construção de projetos distintos para o futuro da Bahia.
A reorganização das forças políticas locais tornou-se ainda mais evidente nas últimas semanas. De um lado, o prefeito Afonso Mendonça, oriundo do campo conservador, sustentado politicamente pelos deputados Pedro Tavares e Adolfo Viana, mas eleito graças a uma aliança com forças aliadas ao Partido dos Trabalhadores (PT), oficializou seu alinhamento ao projeto político liderado por ACM Neto. De outro, uma ampla frente formada por vereadores, ex-prefeitos, ex-candidatos, lideranças comunitárias e representantes do Partido dos Trabalhadores consolidou apoio ao governador Jerônimo Rodrigues, ampliando a polarização política no município e antecipando os movimentos para as eleições de 2026.
Mais do que uma disputa eleitoral, Ibititá vive um processo de redefinição de sua representação política (envolvendo ainda os deputados estaduais Fabíola Mansur, Cafu Barreto, Ricardo Rodrigues e Jacó) no qual a capacidade de construir pontes institucionais passou a ser tão importante quanto a força das lideranças tradicionais.
Da convergência institucional ao reposicionamento político
A eleição de Afonso Mendonça representou um momento singular na política local. Embora vinculado ao campo de oposição ao governo estadual, o prefeito buscou construir uma relação institucional com a administração de Jerônimo Rodrigues.
Essa aproximação foi viabilizada principalmente pela atuação da educadora Fabrízia Pires de Oliveira, diretora do Núcleo Territorial de Educação da região de Irecê, liderança do Partido dos Trabalhadores e aliada do deputado estadual José Augusto “Jacó”. A articulação permitiu que demandas históricas do município chegassem aos governos estadual e federal, criando um ambiente de cooperação que ultrapassou as diferenças partidárias.
Como resultado, Ibititá passou a reunir um conjunto expressivo de investimentos públicos. Entre as principais iniciativas anunciadas estão a reforma da Feira Livre, com investimento superior a R$ 3,5 milhões; a construção da Unidade Básica de Saúde de Lagoa do Leite, orçada em mais de R$ 1,7 milhão; a ampliação e reforma da quadra coberta da Rua Nova Brasilândia; a reforma do Colégio Estadual do Campo; e o projeto de uma nova unidade educacional, estimado em aproximadamente R$ 28,9 milhões, com salas de aula, laboratórios, biblioteca, teatro, restaurante estudantil e complexo esportivo.
Também foram articuladas ações voltadas ao abastecimento de água, agricultura familiar, habitação, saúde e infraestrutura, além da retomada de obras vinculadas ao Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), cujas ações contaram também com o poder articulador do deputado estadual Ricardo Rodrigues.
Muito além das obras
Se as obras representam a face mais visível da presença do Estado, os programas permanentes de proteção social ajudam a explicar outro aspecto fundamental da economia municipal.
Em Ibititá, políticas como o Bolsa Família, o Benefício de Prestação Continuada (BPC), o Auxílio Gás, o Garantia-Safra, o Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE), o Programa de Aquisição de Alimentos (PAA), ações de segurança alimentar, abastecimento de água, apoio à agricultura familiar e outras iniciativas federais e estaduais formam uma importante rede de proteção social e dinamização econômica.
Entre essas políticas, destaca-se o Bolsa Família, que injetou mais de R$ 13,3 milhões na economia de Ibititá em 2025, atendendo 1.663 famílias, segundo dados oficiais do Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social. Em municípios do semiárido, onde parcela significativa da economia depende do comércio local e da agricultura familiar, esses recursos exercem papel decisivo na circulação de renda, na redução da pobreza e na manutenção da atividade econômica.
Essa realidade ajuda a explicar por que diferentes grupos políticos disputam não apenas o comando da Prefeitura, mas também a capacidade de representar o município junto aos governos estadual e federal.


NILVINHA, JACÓ, FABÍOLA E RICARDO RODRIGUES
O rompimento e a reconfiguração das forças políticas
A aproximação institucional, entretanto, não resistiu às mudanças do cenário eleitoral. Nos últimos meses, Afonso Mendonça rompeu o alinhamento construído com setores do governo estadual e declarou apoio ao projeto político de ACM Neto, reposicionando Ibititá no mapa da oposição baiana.
O movimento abriu espaço para uma nova reorganização das lideranças locais. Ao mesmo tempo em que o prefeito consolidava seu novo posicionamento, lideranças historicamente vinculadas a diferentes grupos passaram a construir uma ampla frente de apoio ao governador Jerônimo Rodrigues.
O encontro, realizado em Salvador, esta semana, reuniu vereadores, a ex-prefeita Nilvinha, o ex-prefeito Dr. Chiquinho, o ex-candidato a prefeito Celson Marques, o ex-candidato a vice-prefeito Matheus Neves, a deputada estadual Fabíola Mansur, os deputados estaduais Ricardo Rodrigues e Matheus de Geraldinho, o deputado Jacó, Fabrízia Pires, representantes do PT e outras lideranças regionais.

Durante a agenda foi anunciada a publicação do edital de licitação para a pavimentação da estrada que liga a sede de Ibititá ao povoado de Lagoa do Leite, uma reivindicação histórica da população. A obra foi apresentada pelos participantes como símbolo da capacidade de articulação institucional do grupo e do compromisso com novos investimentos para o município.
Mais do que um encontro político, a reunião representou a formação de uma frente ampla em defesa da continuidade das parcerias com os governos estadual e federal.
O fator Cafu Barreto
Movimento antes central e agora paralelo, ocorre em torno do deputado estadual Cafu Barreto, uma das principais lideranças políticas da história recente de Ibititá, onde foi prefeito duas vezes e elegeu a sua tesoureira e prima Nilvinha Barreto. Após anos tendo o município como seu principal reduto eleitoral, o parlamentar passou a enfrentar uma reconfiguração de sua base política. Se elegeu na base do atual governo estadual, pelo PSD de Otto Alencar e agora está na mesma base do seu até então desafeto político, o prefeito Afonso Mendonça.
Em Ibititá, parte de suas lideranças aproximou-se do projeto político da deputada Fabíola Mansur, a exemplo do grupo liderado pela sua prima Nilvinha Barreto. Em Uibaí, outro município historicamente ligado ao deputado, grupos liderados pelo ex-prefeito Birinha e pela prefeita Aidinha passaram a fortalecer a atuação do deputado estadual Ricardo Rodrigues. Estes contextos tem mexido com os sentimentos do deputado Cafu, que vem desferindo discurso de ódio contra seus concorrentes.
Esses movimentos contribuíram para uma nova redistribuição das forças políticas no Território de Irecê e ajudam a explicar a aproximação de Cafu Barreto com o grupo liderado por ACM Neto, que lhe prometeu recomposição de bases, na tentativa de salvar o mandato do paralmenar.

Muito além das eleições
A nova configuração política de Ibititá revela uma mudança importante na dinâmica local. As disputas deixam de girar exclusivamente em torno das lideranças tradicionais e passam a incorporar um elemento decisivo: a capacidade de construir articulação institucional para atrair investimentos, ampliar políticas públicas e fortalecer a representação regional.
Nesse contexto, obras estruturantes convivem com programas permanentes de transferência de renda, ações de fortalecimento da agricultura familiar e investimentos em saúde, educação e infraestrutura, formando um conjunto de políticas que influencia diretamente o cotidiano da população.
É nesse ambiente que se desenha a disputa de 2026. Mais do que escolher entre grupos políticos, os eleitores de Ibititá serão chamados a avaliar quais lideranças demonstram maior capacidade de transformar diálogo institucional, representação política e recursos públicos em resultados concretos para o município.
Independentemente do resultado das urnas, uma conclusão já parece evidente: Ibititá deixou de ocupar um papel secundário no cenário regional e passou a integrar o centro das articulações políticas do Território de Irecê. O desafio, daqui em diante, será fazer com que a intensidade da disputa política seja acompanhada pela mesma intensidade na entrega de obras, serviços e oportunidades para a população.





