– Pessoas inteligentes e comprometidas com presente e futuro, debatem ideias, a partir de uma agenda inteligente que prospecte o País para um futuro de sucesso –
Editorial I Cultura&Realidade, por João Gonçalves*
“Tudo flui, nada permanece.” A célebre reflexão de Heráclito de Éfeso permanece atual. Governos passam. Legislaturas terminam. Líderes envelhecem. Partidos se reorganizam. Tecnologias tornam-se obsoletas. A mudança é a única constante da História.
Mas há algo que permanece: a Nação.
Permanecem as instituições que cada geração fortalece ou enfraquece. Permanecem os valores que orientam a vida coletiva. Permanecem as oportunidades — ou a ausência delas — legadas aos que ainda nem nasceram.
Toda eleição deveria ser examinada a partir de uma única pergunta: que Brasil queremos construir?
A experiência histórica demonstra que nenhuma sociedade alcançou prosperidade duradoura sem investir em educação, ciência, inovação e instituições sólidas. Os caminhos foram diferentes, mas a conclusão sempre foi a mesma: desenvolvimento exige visão de longo prazo e capacidade de transformar conhecimento em riqueza, cidadania e oportunidades.
Também não existe antagonismo inevitável entre Estado e mercado. As nações mais desenvolvidas compreenderam que mercados dinâmicos precisam de instituições públicas eficientes, capazes de assegurar segurança jurídica, promover a concorrência, estimular a inovação e enfrentar desigualdades que comprometem o próprio desenvolvimento.
Governos, portanto, deveriam ser avaliados menos pela popularidade de seus líderes e mais pela qualidade das instituições que fortalecem e pelas oportunidades que deixam como legado. Escolas, universidades, centros de pesquisa e bibliotecas continuam formando cidadãos muito depois de encerrados os mandatos daqueles que os criaram. No século XXI, soberania já não depende apenas de fronteiras ou poder militar. Depende da capacidade de produzir conhecimento, dominar tecnologias estratégicas, proteger recursos naturais, formar pesquisadores e transformar inteligência em desenvolvimento.
Foi essa compreensão que inspirou pensadores brasileiros como Celso Furtado, Darcy Ribeiro, Anísio Teixeira e Milton Santos. Cada um, a seu modo, defendeu a mesma ideia: o futuro de uma nação depende da educação de seu povo, da solidez de suas instituições e da ampliação permanente das oportunidades.
É sob essa perspectiva que devem ser observados os diferentes projetos de Estado apresentados ao Brasil nas últimas décadas.
Alguns priorizaram a expansão das universidades, dos institutos federais, da pesquisa científica e das políticas de inclusão social, entendendo que o desenvolvimento passa pelo fortalecimento da capacidade intelectual da sociedade. Outros defenderam a redução da intervenção estatal, maior protagonismo da iniciativa privada, liberalização econômica e valorização das liberdades individuais e dos valores conservadores.
Ambas as concepções possuem defensores e críticas legítimas. O debate democrático existe exatamente para que a sociedade escolha, periodicamente, os rumos que considera mais adequados.
O que não pode variar é o compromisso permanente com a República.
Instituições independentes, Justiça imparcial, liberdade de imprensa, universidades autônomas, órgãos de fiscalização fortalecidos e respeito às regras democráticas não pertencem a governos nem a partidos. Pertencem à Nação.
Também seria um erro imaginar que corrupção seja patrimônio desta ou daquela corrente política. Ela acompanha a história humana desde a Antiguidade. O diferencial das democracias maduras não está na ilusão de eliminá-la completamente, mas na capacidade de construir instituições que a previnam, investiguem, julguem e punam com independência e respeito ao devido processo legal.
Nenhuma democracia floresce quando professores são desacreditados, cientistas ignorados, universidades enfraquecidas ou a cultura tratada como despesa supérflua. Nenhuma economia se torna verdadeiramente competitiva desprezando o conhecimento.
Talvez tenhamos dedicado tempo demais à disputa entre líderes e tempo de menos à construção de um projeto nacional. Personalizamos excessivamente a política. Transformamos adversários em inimigos e esquecemos que nenhuma democracia madura pode depender das virtudes — ou das limitações — de um único governante.
Governos mudam.
Maiorias parlamentares mudam.
Ideologias mudam.
As circunstâncias econômicas mudam.
A Nação permanece.
E é justamente por permanecer que deve ser a medida de todas as escolhas políticas.
O verdadeiro patriotismo talvez não consista em vencer eleições, mas em deixar às próximas gerações um Brasil mais livre, mais culto, mais justo, mais próspero e mais democrático do que aquele que recebemos.
Porque a História dificilmente perguntará em quem votamos.
Perguntará apenas que país tivemos a coragem de construir.

(*) Editor deste portal, Especialista em Gestão Pública e Sustentabilidade, Pedagogo especializado em Educação Ambiental e Presidente do Sindicato dos Produtores Rurais da Região de Irecê – SINPRI.






