EDITORIAL | Cultura&Realidade, por João Gonçalves
O Brasil encerra as eleições presidenciais de 2026 com um resultado histórico e uma responsabilidade renovada. Eleito pela quarta vez para a Presidência da República, Luiz Inácio Lula da Silva recebeu 64.256.232 votos, equivalentes a 51,79% dos votos válidos, contra 59.826.041 de Flávio Bolsonaro, que alcançou 48,21%. A decisão soberana dos brasileiros deve ser respeitada, assim como o direito à oposição, à fiscalização e à livre manifestação. Esse é o compromisso que sustenta o Estado Democrático de Direito.
A vitória ganha dimensão especial pela trajetória da disputa. Lula terminou o primeiro turno atrás do adversário: teve 45,16% dos votos válidos, enquanto Flávio obteve 47,03%. A reversão dessa posição na votação decisiva constitui um marco nas eleições presidenciais desde a redemocratização e demonstra que nenhuma vantagem eleitoral substitui a construção cotidiana da confiança popular.
Entre os fatos dignos de registro está a mobilização que aproximou as ruas das redes. Estudantes, movimentos sociais e apoiadores deram novo impulso à campanha no segundo turno. André Janones teve participação relevante na articulação digital, ampliando a circulação das mensagens favoráveis ao presidente. A reação mostrou a importância da comunicação direta, mas também da presença física, da conversa e da organização coletiva.
Outro dado merece atenção: a abstenção caiu de 21,08% no primeiro turno para cerca de 19,2% no segundo. Mais brasileiros compareceram à decisão final. O processo também enfrentou dificuldades operacionais, uma prorrogação judicial do horário de votação nas seções ainda abertas e intensa judicialização. Esses episódios exigem avaliação transparente e aperfeiçoamento institucional, com respeito às provas, ao devido processo legal e à autoridade da Justiça Eleitoral.
Para o Cultura&Realidade, o significado dessa eleição alcança uma questão central: a preservação de políticas que ajudaram a enfrentar desigualdades históricas. Defendemos o legado social construído sob a liderança de Lula porque alimentação, moradia, educação e trabalho digno são direitos que o poder público tem o dever de tornar acessíveis.
O Bolsa Família, articulado ao acompanhamento de saúde e educação, representa uma das expressões desse compromisso. Sua defesa deve vir acompanhada da busca por atendimento adequado, fiscalização e caminhos para a autonomia econômica das famílias. Transferir renda a quem necessita é enfrentar uma privação presente e ampliar as condições para que crianças e adolescentes construam outro futuro.
Na segurança alimentar e nutricional, a trajetória do Fome Zero, a retomada do Programa de Aquisição de Alimentos — PAA, o Brasil Sem Fome e o Programa Cozinha Solidária expressam uma orientação que merece continuidade. Combater a fome exige renda, abastecimento, alimentos saudáveis e apoio a quem produz. O PAA reúne essas dimensões ao associar compras da agricultura familiar ao atendimento de pessoas em situação de insegurança alimentar.
Essa relação tem significado concreto para o Território de Irecê. As compras públicas podem fortalecer agricultores, cooperativas, associações e circuitos locais de comercialização. A ampliação do Programa Nacional de Alimentação Escolar — PNAE, em 2009, e sua vinculação às compras da agricultura familiar ajudaram a aproximar a alimentação dos estudantes da produção rural. É uma concepção de desenvolvimento que merece ser fortalecida: o alimento chega à escola, a renda permanece no território e a atividade produtiva ganha oportunidades.
Na moradia, o Minha Casa, Minha Vida, criado em 2009 e retomado em 2023, consolidou uma frente de atendimento habitacional às famílias urbanas e rurais. Preservar esse programa significa reconhecer o valor de um endereço seguro, da estabilidade familiar e das condições materiais para viver. Sua expansão deve caminhar com saneamento, transporte, serviços públicos e qualidade das construções.
Na educação, o Prouni, o Reuni e a expansão das universidades e dos institutos federais integram um legado de ampliação de oportunidades. Na educação básica, o Pé-de-Meia acrescentou um instrumento de incentivo à permanência e à conclusão do ensino médio público. Essas iniciativas precisam ser avaliadas e aperfeiçoadas, com atenção à aprendizagem, à assistência estudantil e à valorização dos profissionais da educação. Abrir a porta é indispensável; garantir condições para atravessá-la e concluir a formação também.
O trabalho digno completa esse horizonte. A retomada da política de valorização do salário mínimo reafirmou a importância de proteger o poder de compra dos trabalhadores e de quem recebe benefícios vinculados ao piso nacional. O próximo mandato terá o dever de ampliar oportunidades, enfrentar a precarização e combinar desenvolvimento econômico com proteção social. A economia deve ser julgada também pela vida que permite às pessoas levar.
Defendemos, igualmente, a soberania nacional: a capacidade de o Brasil decidir seus rumos, proteger seus recursos naturais, desenvolver ciência e tecnologia e estabelecer relações internacionais orientadas pelos interesses de sua população. Essa soberania se fortalece quando o país reduz sua dependência, investe em conhecimento e assegura condições dignas de vida ao seu povo.
O resultado apertado também impõe uma obrigação política. Milhões de brasileiros escolheram o candidato derrotado e continuam sendo cidadãos com direitos, demandas e lugar no debate público. Governar exige ouvi-los, respeitar divergências e enfrentar problemas compartilhados. A democracia exige firmeza contra ameaças autoritárias e respeito à pluralidade da sociedade.
O Cultura&Realidade se posiciona em defesa desse patrimônio de inclusão e do Estado Democrático de Direito. Esse compromisso implica cobrar do governo eleito integridade, transparência, responsabilidade com os recursos públicos e capacidade de entregar resultados. A confiança recebida nas urnas aumenta o dever de prestar contas.
A quarta vitória de Lula deve ser honrada com avanços concretos. A homenagem mais duradoura à sua trajetória será o alimento saudável à mesa, a moradia segura, o estudante que conclui sua formação e o trabalhador que vive com dignidade. É por esse legado — e pelo muito que ainda precisa ser realizado — que firmamos nossa posição.





