Aos 17 anos, jovem quilombola de Ibititá ganha projeção estadual ao representar a juventude em ato do PT que reuniu o presidente Lula e as principais lideranças políticas da Bahia
Da Redação I Cultura&Realidade
A voz que ecoou diante de uma multidão, em um dos mais importantes atos políticos realizados na Bahia neste ano, veio de uma jovem de apenas 17 anos, nascida em Ibititá e moradora da comunidade quilombola de Lagoa da Pedra.
Maria Eduarda Neves da Silva subiu ao palco da convenção estadual do Partido dos Trabalhadores para representar a juventude. Diante de uma plateia que reunia lideranças políticas de todo o Estado e do presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, ela transformou a oportunidade em um momento de afirmação da juventude, da população negra, das mulheres e, sobretudo, da educação como instrumento de transformação social.

A repercussão do discurso ampliou a dimensão daquele momento. Mas, para compreender a força da fala de Maria Eduarda, é preciso conhecer a jovem que estava por trás do microfone.
Filha de Guimar Neves e Catarina da Silva Rodrigues Souza, Maria Eduarda cursa o 3º ano do Ensino Médio, em tempo integral, no Colégio Estadual do Campo de Ibititá. Sua rotina, entretanto, não se resume à sala de aula.
Ela faz cursos, frequenta a academia, pratica capoeira, gosta de ler e, sempre que pode, reserva tempo para estar com a família. É uma vida aparentemente comum para uma jovem de sua idade. Mas, aos 15 anos, Maria Eduarda começou a se aproximar da militância política. Aos 16, estreitou sua relação com o PT e passou a participar mais ativamente das discussões e da construção política.
A motivação, segundo ela, nasceu da própria percepção sobre as desigualdades existentes no país. “Minha iniciação na militância surgiu a partir da percepção das desigualdades existentes no Brasil e da necessidade de ocupar espaços para contribuir com mudanças e representar a juventude”, explica.
Ocupar espaços
A expressão “ocupar espaços” talvez seja uma das que melhor definem a trajetória que Maria Eduarda começa a construir. Moradora de uma comunidade quilombola, ela conhece de perto uma realidade na qual a juventude, muitas vezes, precisa transformar obstáculos em caminhos. Por isso, suas bandeiras estão diretamente ligadas à realidade que conhece.
Ela defende mais oportunidades para os jovens, o direito ao lazer, o fortalecimento da comunidade negra, a valorização das mulheres e a ampliação das oportunidades para todos. Não por acaso, quando fala sobre política, Maria Eduarda não começa pelas disputas partidárias. Prefere falar sobre pessoas.
Seu projeto enquanto jovem militante é continuar contribuindo para que outros jovens possam chegar a lugares onde, muitas vezes, ainda não conseguem chegar. “Meu principal objetivo é continuar lutando por aquilo em que acredito, contribuindo para que mais jovens da minha comunidade possam ocupar espaços, ter oportunidades e fazer a diferença na sociedade”, afirma.
O palco que mudou a dimensão da caminhada
O convite para participar da convenção não surgiu de improviso. Maria Eduarda foi convidada previamente e recebeu a missão de representar a juventude no palco. Ainda assim, estar diante de uma multidão, ao lado de grandes lideranças políticas e com a presença do presidente Lula, teve para ela um significado que ultrapassou a dimensão política do evento.
“Viver aquele momento foi uma experiência única e emocionante. Subir ao palco representando a juventude foi uma honra e teve um significado muito especial para mim”, conta.
A repercussão posterior aumentou ainda mais a dimensão da experiência. Maria Eduarda diz estar feliz e agradecida pelo carinho que tem recebido desde então. “Estou muito feliz e grata por tudo o que vivi. A repercussão tem sido muito positiva, e tenho recebido muito carinho e incentivo das pessoas.”
A presença de Maria Eduarda naquele palco também não foi um acontecimento isolado. Meses antes, durante uma agenda política realizada em Irecê, um relato da jovem já havia chamado atenção e emocionado o governador Jerônimo Rodrigues. Na ocasião, ela falou sobre sua trajetória e revelou o sonho de chegar à universidade.
A nova aparição, agora diante de um público ainda maior, reforçou uma característica que começa a marcar sua trajetória: a capacidade de falar a partir da própria experiência, sem deixar de representar uma realidade coletiva.
Entre a militância e a vida de uma adolescente
Apesar da crescente exposição pública, Maria Eduarda continua sendo uma jovem de 17 anos, com sonhos, estudos, amizades, família e interesses próprios.

DUDA na roda de Capoeira na sua comunidade
Entre uma atividade e outra, encontra tempo para a capoeira, a academia, os cursos, os livros e a convivência familiar. Essa dimensão cotidiana ajuda a compreender que sua entrada na política não significa abandonar a juventude para assumir prematuramente o mundo adulto.
Ao contrário. É justamente a condição de jovem que ela pretende levar para os espaços de decisão. Sua preocupação é que outros meninos e meninas tenham condições de sonhar, estudar, praticar esporte, acessar cultura, encontrar oportunidades e participar da construção da sociedade em que vivem.
Educação como caminho
Se há uma palavra que sintetiza o pensamento de Maria Eduarda, é educação. Para ela, a escola não é apenas um espaço de formação acadêmica. É uma possibilidade concreta de transformação da vida e da sociedade.
“Acredito que a educação é uma das maiores ferramentas de transformação social”, afirma. E acrescenta que espera que ela continue avançando e alcançando cada vez mais pessoas, porque é por meio dela que se pode construir “um futuro mais justo e igualitário”.
É também por meio da educação que Maria Eduarda projeta seu próprio futuro. A jovem de Lagoa da Pedra que hoje ocupa palcos políticos sabe que ainda está no começo de sua caminhada. E talvez seja justamente essa consciência que dê força à sua mensagem.
“Que a juventude nunca se cale”
Ao falar para os jovens do Território de Irecê, Maria Eduarda não entrega uma mensagem pronta de quem acredita ter todas as respostas. Ela fala a partir de uma experiência ainda em construção.
E deixa um convite à participação. “Que a juventude nunca se cale, nunca deixe de sonhar e continue acreditando que é possível transformar a realidade.” Depois, completa com uma imagem que combina com a própria história: a esperança de que o futuro floresça em liberdade, com mais oportunidades para todos.
Da comunidade quilombola de Lagoa da Pedra ao palco de uma convenção que reuniu o presidente da República e as principais lideranças políticas da Bahia, Maria Eduarda Neves da Silva começa a construir uma trajetória que ainda está longe de ter seu capítulo final escrito.
Aos 17 anos, ela ainda tem muito a estudar, aprender, experimentar e viver. Mas já descobriu uma coisa que costuma levar muito mais tempo para muita gente compreender: ocupar espaços também é uma forma de transformar a realidade.
E, para Maria Eduarda, o próximo espaço a conquistar pode ser justamente aquele que ela carrega como sonho desde que começou a acreditar que educação e participação podem abrir novos caminhos: a universidade.














