No 13º Simpósio de Ciências, Cultura e Tecnologia, João Gonçalves relacionou a formação do território aos desafios ambientais e apresentou caminhos para integrar produção, beneficiamento e comercialização
DA REDAÇÃO | Cultura&Realidade
Como transformar as potencialidades do Território de Irecê em renda e qualidade de vida, preservando os recursos naturais que sustentam sua população? Essa questão conduziu a participação de João Gonçalves no 13º Simpósio de Ciências, Cultura e Tecnologia do CETEP Irecê, em uma discussão que aproximou história, conservação da Caatinga, pecuária e planejamento regional.
Com o tema “Caatinga, Desenvolvimento e Pecuária Sustentável no Território de Irecê”, a atividade foi uma iniciativa da turma do Curso Técnico em Veterinária, sob orientação das professoras Talita Tatiane e Gabriela Cambuí. O encontro inseriu na formação dos estudantes uma reflexão sobre as relações entre a atividade profissional, a realidade rural e o futuro dos municípios.
Pedagogo, especialista em Gestão Pública e Sustentabilidade e presidente do Sindicato dos Produtores Rurais da Região de Irecê (SINPRI), João Gonçalves organizou a exposição em um percurso que partiu do povoamento regional, passou pelas transformações da agricultura e chegou às possibilidades de desenvolvimento sustentável.
Ao recuperar essa história, destacou que a presença humana no território antecede a colonização. Os registros arqueológicos e as pinturas rupestres da região de Central foram lembrados como testemunhos da ocupação indígena, anterior à expansão das fazendas de gado e à formação dos núcleos que deram origem às cidades.
A narrativa também abordou a mineração na Serra do Assuruá, a fixação de famílias agricultoras no platô e a participação das populações negras na formação regional. Nesse percurso, as comunidades quilombolas, a exemplo de Ramos, em Presidente Dutra, foram incorporadas à discussão sobre trabalho, resistência e permanência na terra.
Esse retorno ao passado serviu de base para examinar uma das mudanças mais profundas da economia local: a expansão da agricultura comercial, acompanhada pelo crédito, pela mecanização e pela chegada de migrantes.
Na avaliação do palestrante, o modelo associado à Revolução Verde, especialmente entre as décadas de 1960 e 1990, alimentou expectativas de riqueza e prosperidade, mas deixou consequências sociais e ambientais que precisam orientar as escolhas do presente. Ele apontou o endividamento agrícola, a perda de propriedades para agentes financeiros e o empobrecimento de famílias entre os efeitos desse processo.
No campo ambiental, relacionou a retirada da vegetação e o uso inadequado dos solos ao avanço da degradação e à vulnerabilidade à desertificação. A reflexão colocou no centro do debate a necessidade de compatibilizar a produção agropecuária com a conservação da Caatinga e o manejo adequado da água e da terra.
Apesar dos problemas, João Gonçalves apresentou uma leitura otimista das possibilidades regionais. Ao afirmar que considera o Território de Irecê “o melhor do planeta para se viver”, destacou a combinação de terras planas e férteis, águas subterrâneas e de superfície e disponibilidade de sol ao longo do ano. Para ele, transformar essas condições em bem-estar depende de orientação técnica e planejamento.
A principal crítica foi dirigida à fragmentação das políticas de desenvolvimento. Segundo o palestrante, os municípios precisam de órgãos mais bem estruturados, equipes técnicas e planos capazes de dialogar entre si, reconhecendo que a produção, os mercados e as necessidades da população ultrapassam as divisas municipais. “Os secretários de agricultura ou de desenvolvimento econômico não tem tido a oportunidade de orçamento adequado e diretrizes que conectem a real necessidade estabelecida pelas demandas segundo as diferentes vocações de cada município e construção de um novo formato de conexão territorial”, pontuou.
Como alternativa, apresentou uma proposta de organização que conecta agricultura, pecuária, agroindústria e logística. Nesse desenho, cooperativas e associações participariam da organização dos produtores, da coleta e da preparação dos produtos, articuladas a uma estrutura cooperativista/associativista, com suporte inicial do poder público, voltada ao desenvolvimento econômico.
A proposta contempla tanto o abastecimento local, por meio de compras públicas e da alimentação escolar, quanto o encaminhamento da produção excedente a uma central territorial de negócios. O objetivo é aproximar os produtores de mercados maiores e ampliar as oportunidades de beneficiamento e geração de renda na própria região.
As cadeias da pecuária ajudaram a traduzir essa perspectiva: da alimentação e do cuidado com os rebanhos à produção de leite e carne, passando pelo processamento, transporte e comercialização. O percurso mostrou aos estudantes como o trabalho técnico se relaciona com diferentes etapas da economia regional.
Ao encerrar, João Gonçalves destacou dois desafios para colocar essas possibilidades em prática: o compromisso do poder público e a união dos pequenos produtores. A atividade levou ao espaço de formação profissional uma discussão sobre escolhas concretas para o território — produzir com conhecimento, conservar a Caatinga e organizar os municípios para compartilhar oportunidades.
Para o estudante Astor Marciel de Campos, do curso de Técnico Veterinária, a pauta “foi de suma importância para entendermos a história da região, da cidade e até do próprio Cetep, especialmente sobre a emigração rural e agora o movimento reverso com a emigração urbana”.
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