Modelo busca recuperar pastagens degradadas, reduzir emissões e frear avanço do desmatamento
Da Redação | Cultura&Realidade
O veterinário Luís Fernando Laranja Fonseca decidiu deixar o cargo concursado de professor e pesquisador na Universidade de São Paulo no início dos anos 2000 para se mudar com a esposa e um filho de seis meses para Alta Floresta, no norte de Mato Grosso, região marcada pela expansão da fronteira agropecuária e pelo avanço do desmatamento na Amazônia. A mudança representou uma guinada radical na carreira acadêmica para uma atuação direta no campo.
Ao chegar à região, Fonseca identificou um cenário de extensas áreas de pastagens degradadas e baixa eficiência produtiva. A constatação o levou a defender que o aumento da produtividade em áreas já abertas poderia reduzir a pressão por novos desmatamentos. Em vez de expandir a pecuária sobre áreas de floresta, a proposta seria recuperar solos degradados e produzir mais na mesma área.
Antes de estruturar o modelo atual, ele investiu em iniciativas voltadas à valorização da floresta em pé, como a comercialização de castanha-do-pará. No entanto, avaliou que o impacto dessas ações era limitado diante da velocidade da degradação ambiental. Com foco em escala e viabilidade econômica, passou a desenvolver um modelo de pecuária regenerativa.
Fonseca fundou a Kaeté Investimentos, gestora voltada à captação de recursos para projetos de impacto socioambiental na Amazônia, e posteriormente estruturou a Caaporã, holding que administra aproximadamente 20 mil hectares distribuídos em fazendas nos estados de Mato Grosso, Tocantins e Bahia. Ele também atuou na coordenação do programa de Agricultura e Meio Ambiente da WWF-Brasil.
Nas propriedades sob sua gestão, o sistema combina recuperação de solo, correção de nutrientes, plantio de leguminosas que auxiliam na fixação de nitrogênio e integração de árvores às áreas de pastagem. A estratégia busca melhorar o microclima, aumentar a retenção de carbono no solo e elevar a produtividade por hectare.
Com técnicas de manejo mais intensivas, o ciclo de engorda do gado pode ser reduzido de cerca de quatro anos para aproximadamente dois anos. A diminuição do tempo de permanência do animal no campo reduz a emissão de metano por cabeça, contribuindo para a mitigação dos gases de efeito estufa associados à pecuária.
Dados de monitoramento do uso da terra mostram que a área destinada a pastagens na Amazônia cresceu de forma significativa nas últimas décadas, refletindo o peso da pecuária no avanço do desmatamento. A proposta defendida por Fonseca busca inverter essa lógica ao recuperar áreas já abertas, evitando a necessidade de novas derrubadas.
O modelo, no entanto, enfrenta desafios. A recuperação de pastagens exige investimento inicial, conhecimento técnico e mudança cultural entre produtores acostumados ao sistema tradicional extensivo. Para ampliar a adoção, o pesquisador defende linhas de crédito específicas e mecanismos de remuneração por serviços ambientais, como créditos de carbono.
A discussão sobre rastreabilidade da carne também ganha relevância no cenário internacional, especialmente após a conferência climática realizada em Belém em 2025, quando aumentou a pressão por cadeias produtivas mais transparentes e sustentáveis.
A trajetória de Fonseca ilustra uma tentativa de conciliar produção agropecuária e conservação ambiental em uma das regiões mais sensíveis do país. O modelo de pecuária regenerativa apresentado por ele se insere no debate mais amplo sobre como produzir alimentos em larga escala sem ampliar o desmatamento e os impactos climáticos.
Com informações de Click Petróleo e Gás, MapBiomas, SEEG





